Marília Alves
Tal como na mitologia grega, os portugueses aceitaram, pois, quando foram às urnas, escancaram todos os portões para receber o Cavalo de Troia. Sabiam que dar a segunda maioria ao PS, era entrar num engodo destrutivo. Mas vota-se, não em quem se respeita porque defende os interesses da maioria dos cidadãos, mas em quem se vê no poder.
Bastava olhar para o passado mais recente, para a anterior maioria absoluta. Foi assim com Sócrates, toda uma elite foi desvalorizando os evidentes alertas e, até já depois da sua detenção, juntaram-se as comadres à porta da prisão de Elvas proclamando a inocência do considerado “o melhor primeiro-ministro de sempre”. Recebeu no presídio visitas de ilustres representantes nacionais, entre eles António Costa, um dos seus mais fiéis acólitos.
E toda essa cúpula seguiu desqualificando todos os óbvios sinais relativamente a António Costa. O Cavalo de Troia foi carregado de amiguinhos, sem princípios, nem ideias, nem consciência, nem independência, nem patriotismo, nem ciência, nem seriedade. António Costa nunca se importou de ter clãs no seu governo, pelo contrário, promoveu-os, e todos os escolhidos parece que se dão bem na podridão. Pessoas que não renunciam aos privilégios, uma corte de serventes e serviçais, que parece ter direitos sucessórios.
Com uma maioria absoluta, gosta de desvalorizar as asneiras dos serviçais, leia-se ministros e afins, é complacente com as sucessivas falhas éticas, com o despudor perante passados menos claros, com o escárnio para com a transparência, entregando o poder aos elementos dos clãs que repetem o missal do “à Justiça o que é da Justiça”. Contudo, agora até o Presidente da Assembleia da República vem interferir com a Justiça, ao exigir que o inquérito seja célere, esquecendo-se, contudo, de pedir o mesmo para os milhares de inquéritos que correm por esses tribunais dentro contra cidadãos comuns. Ou seja, a pouca vergonha chegou ao ponto de uma forma clara e cristalina terem direito a uma Justiça só para si.
Tal como aconteceu aos troianos, o que saiu de dentro do cavalo foi mais do mesmo. E, desde há 35 anos a esta parte, pelo menos, continuamos atolados num lodaçal que acarreta consequências funestas. Obtivemos, então, a primeira das 2 maiorias absolutas de um partido (PSD) na história da democracia portuguesa. Duas do PS mais recentes, quatro mega esquemas fétidos. Sim, as maiorias absolutas têm-se tornado um problema para o País. Vários indicadores internacionais demonstram que a vida é difícil em Portugal, e que a ação normal de qualquer cidadão português é abandonar o seu país. Os nossos jovens mais qualificados procuram outras paragens onde lhes poderão ser proporcionadas condições de vida dignas.
A ação da Justiça não pode ser inibida, no caso o Ministério Público (MP), com receio de dar azo a populismos, desmerecendo a ação do MP em vez dos visados propriamente ditos. É como receber uma má notícia e atacar o correio. Sem esquecer que António Costa, enquanto Ministro da Justiça de Sócrates, foi um dos principais responsáveis políticos pela criação do Código de Processo Penal que hoje temos, e do desmedido poder que agora criticam ao MP, considerado, quando lhes interessa, um autêntico “Estado dentro do Estado”.
Apesar de atuarem da mesma forma que atuam para com qualquer cidadão comum, aparentemente o que estamos a vivenciar, do ponto de vista sociológico, parece que o cidadão comum acha que os políticos devem ser tratados de forma diferente do que eles próprios. O comunicado do MP é apontado porque a sua referência ao Primeiro Ministro é demasiado vaga. Tanto quanto é apontado por ser demasiado “poderoso” e ter provocado um terramoto. Aliás, essa história de que se abriu um perigoso precedente é risível. Foi António Costa que decidiu demitir-se. Não foi a Justiça que o despediu – esta está apenas a fazer o que lhe compete.
Há muito tempo que se sabia que a designada “bazuca europeia” suscitava muitas cobiças, mas o governo foi complacente com o engavetamento do combate à corrupção – e isto já não é de agora, é o sistema enraizado desde a maioria de Cavaco Silva. Tal como no passado, noutras negociatas que levaram ao enriquecimento exponencial de muitos indivíduos que são conhecidos por todos, mas que ninguém lhe aponta o dedo, investimentos de milhares de milhões obscuros surgem agora nas negociatas do hidrogénio e do lítio, que há muito eram denunciadas pelo calcar dos direitos das populações. Sob o título pomposo da transição energética e digital, estes negócios servem para enriquecer empresas e retirar direitos aos cidadãos. E não para salvar o ambiente ou aprimorar a democracia.
Mas a cegueira, a cumplicidade, os conluios são tão poderosos que tudo foi relativizado. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. A ruína económica cresce, a indústria enfraquece, o salário diminui face ao aumento dos preços e dos juros dos empréstimos. A renda diminui. O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão.
Agora o país indigna-se com o que saiu do cavalo. O PS comporta-se e acha-se como a última bolacha do pacote, que por regra costuma estar partida, senão mesmo amassada e com sabor a mofo. Na verdade, usa Ventura como o papão da democracia, tal como usara Passos Coelho como o papão da austeridade e da justiça social. Este PS não vai sair de cena com facilidade, não admite derrota, a não a ser que os eleitores assim o decidam.
Preparamo-nos para celebrar 50 anos de democracia, mas até parece que estamos no princípio. Haver transparência é importante, claro, mas se o propósito for apenas filtrar os escolhidos do sistema, para conseguirem rodarem de posto em posto, de conselho de administração para outro, de uma pasta governamental para outra, por aí só se alimenta o descrédito. Acreditar não é fechar, mas abrir, não é repetir os mesmos erros, mas convocar os que muito além dos círculos fechados podem ser mais desafiados a contribuir para o interesse comum, que normalmente não se conseguem aguentar em estruturas partidárias onde acima de todo se luta pelo cartão e pelos privilégios associados.
Isto tem tudo para correr mal, mas não tem tudo para correr péssimo, como disse o outro alguém. O nosso caminho será aquele que decidirmos daqui a quatro meses.
Marília Alves




