Maria Helena Marques

Quando temos por hábito olhar e ver algo que nos desperte a atenção, normalmente nasce a curiosidade de conhecer e saber mais sobre a causa da nossa curiosidade.

Aconteceu que nas variadas vezes que pude estar na zona do “cadeiral” do Convento de Lorvão meus olhos se fixaram numa Barquinha que em tempos terá sido um andor que saia em procissão na festa da Senhora da Boa Morte que, pelos vistos, já não acontece há muitos anos.

Era a 15 de Agosto segundo o que consegui apurar num texto de “Correia Borges ” numa rubrica “Lorvão Antigo e Moderno ” publicada no N.P. de 8/08/1964.

A essa festa estava associado o “Bolo Santo” que, pelo que constava era um bolo enorme, cozido num grande forno que estaria situado num local perto de onde se encontra agora o Cruzeiro, sobre o muro da ribeira.

Mas há que perceber melhor a “estória” dessa tradição do “Bolo Santo:

A ideia terá nascido em Pombal. E qual a razão de ser?

Conta-se que pelo séc. XVI, nos tempos em que lá viveu, Dona Maria Fogaça, caiu sobre aquela zona, uma enorme praga de gafanhotos e lagartos que destruíram as plantações. Foi daí que pensaram em fazer essa procissão, implorando proteção à Senhora da Boa Morte. 

A partir daí a D. Maria Fogaça, encarregou-se de fazer a festa daí para diante e, para melhorar a festividade, mandou fazer um grande forno, onde seriam cozidos dois grandes bolos de trigo, um para o Pároco, outro para o Povo

Mais tarde resolveu mandar fazer um só bolo feito com 20 alqueires de trigo que, depois de amassado, era levado em procissão num andor por seis homens

Como era muito grande e pesado, era muito difícil colocá-lo no forno e, por vezes, ficava meio torto e defeituoso. Por essa razão, um dos criados da D. Maria Fogaça, atreveu-se, em nome de Nossa Senhora de Jerusalém, ir compor o bolo dentro do forno…. Como ele saiu ileso, foi considerado um milagre, pois o forno tinha sido aquecido com três carradas de lenha.

Esta situação terá soado longe e é possível que Lorvão tenha feito nascer a mesma tradição por razões de Fé pedindo proteção para seus males.

Seria de Pombal que vinha um homem especializado para preparar o forno que era aquecido durante três dias para que cozesse bem o bolo que era grande e teria de ficar bem cozido e bem enxuto.

O bolo era amassado na véspera da procissão e colocado num andor apropriado que sairia em solene procissão com a imagem da Senhora da Boa Morte no seu barquinho.

Só no fim da procissão o bolo era colocado dentro do forno.

Esse momento era de grande curiosidade e espanto, pois o homem ia dentro do forno, entrava lá com um cravo fresco na boca e quando saía, nem o cravo nem o homem saiam chamuscados. Era um autêntico milagre, mas haverá uma explicação científica que se diz ser um fenómeno físico de evaporação brusca das humidades do bolo.

O bolo depois de cozido era levado para a Sacristia, onde era repartido pelos devotos que o guardavam de um ao outro ano sem que se estragasse por ser muito enxuto.

Tudo o que aqui relato é baseado no que li no texto de Correia Borges, que já referi e peço me desculpe ou mesmo me corrija se não soube transmitir fielmente o que relata no seu belo artigo.

Fico agradecida por nesse ano de 1964 ter trazido à lembrança essa tradição que já então estava esquecida. 

Hoje fui buscá-la para que não fique de todo apagada. 

Entrevistei alguém dos mais velhos em Lorvão e nenhum tinha qualquer lembrança nem sequer por lhes ter sido contada por outros mais velhos ainda.

Aqui fica, pois, um relembrar do passado. Desta vez, a “estória” do Bolo Santo.

E a barquinha da Senhora da Boa Morte lá está no Convento para dar algum testemunho dessa bem antiga tradição!

Maria Helena Marques

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