David Gonçalves de Almeida

Desenho de uma freira a ser emparedada, de Vinzenz Katzler, pintor e artista gráfico austríaco, nascido a 6 de outubro de 1823 e falecido a 22 de julho de 1882.

A Literatura Portuguesa – já o temos dito – está cheia de referências a Penacova. Algumas bastante conhecidas, outras de que quase ninguém ouviu falar, esquecidas que estão no meio de milhares de páginas de escritores e de poetas portugueses.

O título do “eco” que hoje aqui apresentamos não é mais do que o nome de uma narrativa popular, neste caso um “solau” que “canta os amores de um mouro por uma cristã” [1], escrito por Serpa Pimentel.

Por uma questão didáctica, será pertinente começar com algumas notas sobre os termos “emparedada” e “solau”, bem como sobre a vida e a obra de José Freire de Serpa Pimentel (1814-1870).

Refere Maximina Girão Ribeiro que nos tempos primitivos do cristianismo existiram pessoas que, optando por viver afastadas do mundo, passaram a viver em rigorosa clausura para o resto da vida. Ao longo da Idade Média prevaleceu essa prática. O isolamento e sacrifício eram levados ao extremo. Fechavam-se em cubículos (cerca de 40 palmos quadrados) onde só existia uma fresta, por vezes em forma de cruz, através da qual se confessavam, comungavam e recebiam algum alimento, muitas vezes pão e água. Esta prática era geralmente o resultado de um desgosto, do repúdio da família, do fanatismo religioso em que se procurava a “expiação” dos pecados e, por vezes, de um desequilíbrio a nível mental. Em Coimbra, no início da nacionalidade, terão existido mulheres que viviam recolhidas, sem seguirem uma regra comum, em pequeníssimas construções com um único postigo, e já nessa época designadas por “emparedadas” ou “enceladas”. O topónimo “Celas”, em Coimbra, bem como alguma ligação ao convento homónimo, poderão ter a ver com esta realidade.

Quanto ao termo “solau”, recordemos Almeida Garrett que subdividia as Narrativa Populares em Romance, Xácara e Solau. Romance: quando se tratava de um conjunto narrativo com predomínio do heroico. Xácara: quando apresentava a forma dramática. Solau: no caso de se tratar de uma história com índole triste. Qualquer uma destas variantes tem, por vezes, em comum o lirismo melancólico ou os diálogos marcados pelos queixumes e pelas mágoas. No prefácio ao seu Cancioneiro, diz Serpa Pimentel que criara aqueles “solaos”, uma espécie de poesia que não era a “balada alemã” nem a “chácara mourisca” e muito menos o “rimance espanhol”. Com frequência, estas “composições épico-líricas medievais”, romances em verso, eram acompanhados por música quando apresentados em público.

Serpa Pimentel, de seu nome completo José Freire de Serpa Pimentel, era natural de Coimbra e irmão do também poeta António de Serpa Pimentel. Poeta “medievista” e dramaturgo, pertenceu à segunda geração romântica. Fundou o Teatro Académico de Coimbra em 1838. Serpa Pimentel não foi alheio à influência dos poemas narrativos de cunho épico e popular introduzidos por Almeida Garrett. Tendo-se formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi 2º Visconde de Gouveia, Par do Reino, Juiz e Governador Civil do Porto.

Como referimos, o Solau “Dona Lucinda Moniz ou A Emparedada de Penacova”, escrito em Coimbra no ano de 1842, fala-nos da paixão de um jovem mouro, que vivia em Gondelim, por uma jovem que professava a fé de Cristo e que, entretanto, se refugiara numa cela nos penhascos de Penacova. Trata-se de uma curiosa narrativa poética que começa por nos apresentar o “formoso neto do Agar, castelão miramolim”, sentado “nas ameias do seu nobre Gondelim”, descantando “uma toada no saudoso bandolim.”

O seu castelo está cercado de “gente inimiga e baptizada” e agora Gondelim é a “última pedra da Mauritânia domada”. Eram tempos em que “domada foi Coimbra bela com o hercúleo torreão”, em que igualmente “domada foi Lousã real” e “nas veigas de Lorvão, monges negros assanhados, de lança em riste” estavam.

Também “Estão mais perto, e de riba / As gentis cavalarias / De Penacova, a soberba, / Com as suas galhardias, / Avassalando o Mondego / Sobre negras penedias.”

“Penedias de minha alma! / Murmurava o triste mouro, / Lá por baixo d’essas rochas /
Escondeis o meu tesouro, / Dona Lucinda Moniz, / De formosas tranças d’ouro.”

E, mais adiante, o apaixonado insiste:

“Deixa os cilícios da dor, / Do Profeta abraça a lei, / Vem ser moura nos meus braços, / E rainha do teu rei.”

A dado momento, goradas as súplicas amorosas, passa-se à guerra e dá-se o assalto a Penacova:

“Lá das partes de Lisboa; / De virotes, e de lanças / Todo o vale se povoa / […] E trepou pela assomada / D’alta montanha fronteira, / E entrou, incólume, as portas / De Penacova guerreira, / E trouxe a emparedada / Sobre os ombros prisioneira.”

Dona Lucinda Moniz não se dá por vencida, não se submete, e reafirma a sua fé cristã.

A parte final da narrativa reza assim:

“[…]A bela cristã trazia / Um rosário, e uma cruz / Com o nome de Maria; / E assomou-se no balcão / E aos guerreiros o mostrou;/ E toda a turba descrente/ De joelhos se curvou:

E depois, mui amorosa,
Disse ao nobre castelão:
Vem desmoura-te em meus braços,
Anjo do meu coração.

E baptizou-se dest’arte
Todo o infiel Gondelim.
– Quantos cristãos, quantos mouros
Fazem uns olhos assim!”

A ficção histórica pode ser uma forma de ensinar história de maneira leve e cativante e simpática ao leitor. Ao mesmo tempo que instrui, permite que a sua imaginação navegue para outros tempos e lugares – afirma João Lourival Silva. Se puder, não deixe de ler a versão completa deste texto de Serpa Pimentel que tão bem nos transporta para os tempos da Baixa Idade Média na nossa região e que de um modo muito enraizado povoam o nosso imaginário colectivo.


[1] In O Panorama (1837-1844): Jornalismo e Ilustração em Portugal na Primeira Metade de Oitocentos, João Lourival R. O. e Silva, 2014

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