Marília Alves
Desde muito cedo descobri que a morte é um dia que, seguramente, todos vamos viver. A única coisa que temos garantida é a transitoriedade da vida e a inevitabilidade da morte. A morte devora tudo impiedosamente, todo e qualquer frágil humano.
Vi tantos mortos/as durante estes anos todos. Nasci e cresci na aldeia e não havia, como há hoje, a preocupação de esconder a morte das crianças. A morte fazia parte da vida social e as crianças participavam, naturalmente, de todos os rituais. Além disso, as pessoas morriam, sobretudo, em casa, e de morte morrida. Quando o Serviço Nacional de Saúde nasceu, havia pessoas que nunca tinham ido a um médico. Só muito excecionalmente se recorria ao hospital.
A morte começava por ser anunciada pelo toque dos sinais. O sineiro, pessoa responsável por tocar o sino na igreja local, conseguia variar os sons conforme os atos que queria anunciar. Para anunciar a morte de uma mulher, tocava duas vezes seguidas, com um intervalo de um minuto; para anunciar a morte de um homem, tocava três vezes seguidas; e o povo dizia, se há dois ou três sequências de toques, os sinos estão a dobrar a finados. No caso dos “anjinhos” (bebés e crianças mortas em tenra idade), repica o sino em sinal de que um anjo abriu asas e voou para o céu. Mal ouviam os sinais, as pessoas locais paravam as lides domésticas e do campo. Os homens de chapéu na mão. Paravam e rezavam a Avé Maria, terminando num murmúrio quase impercetível “que descanse em paz”.
Às mulheres da família cabia-lhes a tarefa de preparar os corpos dos familiares velhos, e dos menos velhos, que também que se iam finando. Eu acompanhava a minha avó, a minha mãe, a minha tia. Era tido como normal as crianças participarem e até mesmo ajudarem nesses preparativos.
A imagem mais nítida que me vem à memória, é da minha tia São, mãe do meu padrinho, sofria de uma doença má, que hoje designaríamos como do foro oncológico. Já se aguardava a sua morte. Veio do hospital, muito fraquinha, mas ainda com vida e para morrer em casa. Lembro-me da cama de ferro, dos lençóis de linho imaculados, onde a deitaram, onde deu um último suspiro, arrancado do fundo de um peito em que um coração parava de bater. Não me lembro de ter vindo o médico passar a certidão de óbito. O corpo foi passado com um pano humedecido, vestiu-se o melhor vestido e calçaram-se os melhores sapatos. Tudo com muito carinho, falava-se com ela como se nos estivesse a ouvir. Um véu cobria os cabelos, as mãos juntaram-se como em oração e um terço foi entrelaçado nos dedos. A urna chegou e o velório ocorreu na sala de estar da habitação, local em que se velou o corpo de um dia para o outro. As flores, as velas a escorrer cera, as mulheres vestidas de preto rodeavam a urna aberta, os homens ficam lá fora, na varanda e repetiam: “esta vida não é nada. Não somos nada”.
Durante a noite os familiares próximos continuavam a velar os corpos. Rezavam orações. Contavam histórias antigas. Algumas trágicas, outras mais suaves para amenizar o ambiente. Horas e horas a velar o/a morto/a. E orações, muitas orações para que o destino seja inapelavelmente o reino de Deus. E eu ali, procurava vencer o sono, para não perder nada do que se estava a passar. Até que vinha um homem de fato escuro, arredava as velas e as flores, e fechava a urna. A tampa cerrava-se e o corpo desaparecia dos nossos olhos. Para sempre. A urna era transportada na carreta funerária para o cemitério local. O acompanhamento começava pela carreta movida pelos homens/familiares mais próximos, seguia-se o padre, o sacristão, os elementos da irmandade, a família e todas as outras pessoas que acompanhavam.
Parece que foi ontem. Num simples piscar de olhos, passaram-se já mais de quarenta anos. Começava o mistério: Qual o destino das almas que partem?
Tudo aquilo me despertava forte curiosidade, mas também me comovia seriamente, ainda que eu fingisse que não. Julgo que só comecei a chorar, na verdade, mais tarde quando o meu tio Carlos e os meus avós maternos (figuras ternurentas da família) faleceram. O momento pertencia aos mortos, não aos vivos. Não me ia pôr ali a chorar. Às vezes, não raras vezes, o maior sofrimento e desespero é traduzido pelo silêncio. Um silêncio muito forte. Impiedoso.
A morte faz calar as palavras. São inúteis. Não servem para nada. De nada vale consolar. As palavras de consolo, são ditas no pressuposto de que elas têm poder para diminuir o vazio que a morte deixou. Como se a pessoa que a morte levou não fosse tão importante assim e algumas palavras pudessem diminuir a dor que sua morte deixou junto dos entes queridos. Só que não.
Quando a minha mãe faleceu, há 3 anos, logo no início da Pandemia da Covid-19, o isolamento a que, tal como tantos outros idosos, esteve sujeita em contexto hospitalar, foi a maior crueldade de tudo o que vivemos. Após três semanas de internamento hospitalar sem autorização de visitas, fui informada da sua morte às seis horas da manhã. Fui reconhecer o corpo, de longe, abriram dois invólucros, para mostrar apenas o rosto. Entrei na morgue de máscara e roupa hospitalar. Sou míope, não levei os óculos, propositadamente não quis ver a minha mãe, julgo que foi o único finado da família mais próxima, que não quis ver. Depois os invólucros foram cerrados, o funeral decorreu em urna fechada e num funeral com um acompanhamento de, apenas, cinco ou seis pessoas, com máscara facial e todas com receio de se aproximarem umas das outras – havia um mal impiedoso e fatal muito próximo. A desumanização pandémica, o sofrimento da perda agravado diante da impossibilidade de visitar os familiares internados e, depois, da morte sem um velório.
Lembro a minha mãe quando dizia “tens que trazer a cabeleireira a casa, não quero morrer com o cabelo mal cortado”. Rezava o terço e pedia a Deus uma boa morte. Infelizmente, não tenho certeza de que ela a teve. O cabelo foi arranjado poucos dias antes de dar entrada no hospital e é assim que eu a quero lembrar. Aliás, é assim que, emocionalmente, me defendo.
Tudo isto me veio à memória no sábado passado, durante o funeral de uma estimada prima. Pessoa de afetos e de vivências com muitos percalços e sofrimentos, mas que gostava da vida e, nos últimos anos, abria um sorriso ternurento quando eu lá ia a casa levar alguns produtos da horta.
Quando nos morre um familiar chegado a nossa própria morte entra-nos pelos olhos adentro. Percebemos que podemos cair a qualquer momento. Torna-se por demais evidente o frágil equilíbrio da nossa própria existência e que a única coisa que temos garantida é a queda iminente.
Marília Alves




