David Gonçalves de Almeida

Não podia a crónica desta semana deixar de evocar os trágicos acontecimentos ocorridos na povoação do Roxo em 1921 e de fazer referência ao evento, do passado sábado, comemorativo do centenário daquela fatídica tarde de Sexta-Feira da Paixão.
Com o propósito de lembrar e honrar a coragem e a solidariedade dos habitantes desta localidade, afirmar o orgulho de pertencer a este povo que se sentiu injustiçado e reagiu, e igualmente homenagear aqueles que acabaram por ser mortalmente atingidos, a associação ECOS (Encontros Culturais e Obras Sociais) levou a efeito, no passado sábado, um programa cultural que incluiu missa em memória das vítimas, exposição documental (essencialmente recortes de imprensa) conferência pelos historiadores Prof. Doutor Luís Reis Torgal e Dra. Maria da Luz Rosa, recriação teatral pelo Rancho Folclórico Juventude do Roxo, sob a orientação de Sandra Henriques, do grupo de teatro Partículas Soltas, de Penacova, declamação de um poema de Luís Pais Amante, inauguração de um mural (autoria de João Carpinteiro Santos) e lanche partilhado.
25 de Março de 1921 – Alexandrina de Jesus Duarte transportava, em direcção a Coimbra, um cântaro de azeite. Na fronteira dos concelhos, foi mandada parar pelas autoridades que vigiavam a zona. Por saber que a venda de azeite era ilegal e não sendo portadora de guia, pôs-se em fuga e foi pedir ajuda ao namorado, Bernardo Maia. Só que, tendo pousado o cântaro ao cimo das escadas, facilmente foi localizada. A GNR prendeu-a e apreendeu os vinte litros de azeite que transportava.
Em solidariedade com a Alexandrina e a sua família, o sino tocou a rebate e a população juntou-se na Eira do Barreiro, impedindo os agentes de levar consigo a rapariga e o azeite. Os militares retiraram-se, mas voltaram ainda nesse dia com reforços, disparando a matar.
Abateram na aldeia (seriam cinco da tarde) dois homens, Alípio Matias (na imprensa da época identificado como Alípio Rodrigues Russo) e José Luís da Fonte, ambos casados, de 42 e 65 anos, respectivamente. Os corpos das vítimas foram levados pela Guarda para Penacova e sepultados na Eirinha, de acordo com o assento de óbito (Registo de Óbito da Conservatória de Penacova que laconicamente apenas refere: “Ignora-se quaisquer outros esclarecimentos”) sem que os familiares fossem autorizados sequer a fazer velório e funeral. Um terceiro morador, António Miguel, de 27 anos, ferido no local, acabaria por morrer no hospital de Coimbra. Para além dos mortos, resultaram destes confrontos também vários populares feridos. No dia seguinte, o Roxo foi varrido por forças de Infantaria e Cavalaria da GNR que fizeram busca casa a casa, revolvendo tudo o que julgavam poder ser usado para esconderijo, além das casas, palheiros, currais e até poços. Mais de trinta pessoas foram presas e levadas para Coimbra.
“Não se tratou de uma revolta premeditada e organizada, mas de uma resposta solidária à prepotência e violência das forças da ordem. Com coragem e determinação, o povo uniu-se em defesa de dois filhos da mesma terra, contra uma lei injusta, saída do autoritarismo de governantes cegos à miséria que grassava por todo o país” – salientou Maria da Luz Rosa na sua intervenção, afirmando ainda: “É a este povo solidário e corajoso, trabalhador e humilde que eu tenho a enorme honra de pertencer. […] Que saibamos continuar a dignificar as nossas raízes e a nossa terra, vivendo aqui ou em qualquer parte do país ou do mundo”.
Saibamos dignificar as nossas raízes e a nossa terra cujos ecos, mais distantes ou mais chegados, são sempre vozes que se propagam no espaço e no tempo e, de algum modo, se projectam neste presente que, aqui e agora, nos é dado viver.












