Marília Alves

Os ucranianos irão passar este inverno gélido numa guerra sem fim à vista. No passado mês de novembro, começou a nevar, irão ser cinco longos meses de condições climatéricas muito difíceis naquela geografia. Para levar à rendição ucraniana, Moscovo tem destruído infraestruturas básicas, pondo em risco a vida da população em geral, durante o Inverno. Muitas cidades estão sem água e eletricidade, as pessoas contam histórias tristes e similares de deslocamento das suas casas, de temor ao frio extremo e de escassez de comida. Tudo isto se passa no coração da Europa e ainda me parece irreal: é estranho continuarmos com as nossas vidas normais enquanto a guerra tem esta violência.
Estaline tentou matá-los à fome, sendo que morreram milhões. A grande fome da Ucrânia – conhecida por Holodomor – foi um dos maiores genocídios da história, levado a cabo pelo Governo da União Soviética de Estaline, em 1932/33, e sempre foi escondido pela poderosa propaganda russa, numa repugnante tentativa de “passar a esponja”. Todos os serviços de informação dos países ocidentais tiveram conhecimento desse terrível facto histórico, contudo, não o consideraram relevante, tanto assim é que nunca o publicitaram aos povos. Passados 90 anos, e até este ano, apenas 16 países e a própria Ucrânia, o reconheceram oficialmente como um genocídio.
O Holodomor foi levado a cabo por decisão de Estaline e para acabar com a resistência à colectivização dos camponeses ucranianos, com requisição violenta de cereais e gado, e toda a sua produção agrícola. Morreram milhões de ucranianos da forma mais atroz e desumana, de fome. Famílias inteiras massacradas, crianças que nasceram sem vida, milhares de seres humanos deixados no chão ao abandono, corpos que nada mais eram do que a pele colada ao osso.
Tudo o que se passou foi dantesco, uma história de morte, horror e terror, que agora se está a repetir, em que os russos estão a praticar o genocídio dos ucranianos pelo frio, com ataques massivos a infraestruturas que põem em causa a sobrevivência das pessoas em geral e que prefiguram práticas terroristas, pois visam instigar o terror na população.
Para além dos contínuos bombardeamentos, tem sido uma abordagem sistemática na ofensiva russa e desde que, em fevereiro, invadiram a Ucrânia, nas áreas ocupadas as pessoas estão a ser sujeitas ao mesmo tratamento que Hitler lhes deu quando os invadiu, com uso de violência bárbara como arma de terror, incluindo execuções, deportação, tortura e violações de pessoas que, regra geral, acabam mortas por soldados russos, que são incentivados a esses actos pelas lideranças militares e políticas. As forças que agem com particular brutalidade continuam a ser homenageadas pelo ditador Putin, tal-qualmente Hitler entregava cruzes de guerra (condecorações militares mais importantes) aos elementos mais facínoras das SS.
Um poder despótico, alucinado, imperialista continua a mandar para a guerra e para a morte os seus nacionais, jovens de famílias pobres, que vivem nos confins da federação, e chegando ao ponto de tirar os criminosos da cadeia e colocá-los na frente de guerra – ou seja, homicidas, violadores, etc., etc. – sendo que tudo isto é apoiado pela maioria da população russa. Mas não só.
Recentemente, houve uma votação no parlamento europeu de uma resolução (não vinculativa) que declara a Federação Russa um estado patrocinador do terrorismo, na sequência dos crimes de guerra e das violações do Direito Internacional e Humanitário. O objectivo é preparar um cenário em que o presidente russo, Vladimir Putin, e outros sejam julgados num tribunal internacional. Como já vimos, todos os pressupostos para essa classificação estão mais que preenchidos. Contudo, nessa votação, representantes do povo português votaram contra a abstiveram-se, nomeadamente o PCP votou contra e o Bloco de Esquerda absteve-se, acompanhado – na abstenção – por alguns deputados do PS.
Representantes do povo português numa instância da união europeia, que, tendo em conta a sua votação, estão do lado de Putin. Ou seja, este para além de ter o apoio do seu povo, tem acólitos no mundo inteiro, incluindo Portugal. As pessoas que pertencem a estes partidos, diariamente, na televisão surgem como defensores da Democracia, da Liberdade e do direito dos povos à Soberania e Autodeterminação, e contra todas as formas de imperialismo e colonialismo, mas, quando chega o momento da verdade, o que se constata é que “olhem para o que eu digo e não para o que eu faço”, não condenam a Rússia pela invasão da Ucrânia, nem manifestam solidariedade para com um país soberano – invadido por um bandido – em plena Europa do século XXI.
Em suma, Putin tem apoios claros, como vimos, em todo o mundo, pelo que, contrariamente, ao que é propalado, nunca esteve tão acompanhado de forma declarada e objectiva, sendo certo que esse apoio não é só dos políticos portugueses demagógicos, mas também, por exemplo, de outros políticos nomeadamente alemães, em que o primeiro-ministro pôs a Alemanha na dependência energética da Rússia, e neste momento é um alto cargo dirigente Gazprom (a maior empresa de energia da Rússia e a maior exportadora de gás natural do mundo). Inclusivamente, vários países – como a China, a India, o Irão, a Turquia – para além de apoio político, dão apoio logístico à Rússia através do fornecimento de armas e equipamento militar.
Nesta conformidade e a título conclusivo, a Rússia e, posteriormente, a União Soviética sempre tiveram uma visão imperialista nas relações internacionais, desde o tempo dos czares. Neste momento, temos um aprendiz de czar, cuja diferença – dos anteriores – é não usar coroa, mas que continua a utilizar os mesmos métodos e a viver nos mesmos palácios.



