Luís Pais Amante
Neste meu artigo, começo por enaltecer a Opinião excepcional da Minha Colega Marília Alves, no seu “Copa de Sangue”, onde aborda a questão “Catar” e tudo o que sente sobre a ferida infligida nos Direitos Humanos, cujo silêncio do Presidente da FPF se tem feito sentir.
As nossa Mulheres -com M grande- como é o caso, têm uma capacidade estrondosa para sentir e falar e teorizar sobre coisas que nós -Homens- ainda nem sequer conseguimos atingir…
Mas, eu quero discutir, aqui, se me permitem, a situação do nosso Futebol; do nosso modo peculiar de falar sobre as coisas, mas não praticar; da chaga dos Direitos que não damos e da hipocrisia que isso comporta nos titulares de cargos públicos, ainda que amantes da bola.
Começando pelo fim, eis que sabemos que talvez iremos pagar as viagens de Estado a 3 pessoas que não se deviam, pura e simplesmente, meter nisso…nem onerar com tanto o triste do nosso OE que ainda agora descapitalizou as reformas dos portugueses.
A explicação de que a nossa Seleção Nacional não pode deixar de ter junto a si “o calor” destes senhores, não cola, como se diz agora:
– em primeiro lugar porque, ultimamente, eles os 3 (primeiras figuras do Estado) não têm sido capazes de dar calor nenhum a ninguém; só problemas, só chatices;
– não consta que tenham ido, com tanto afã, às jornadas heróicas de outras Seleções Portuguesas [por exemplo a dos “Paralímpicos” do nosso conterrâneo Manuel Marques (O Oliveirinha) que, sendo portador de paralisia cerebral, pratica Boccia e Atletismo e já conquistou, sozinho, tantas, mas tantas medalhas (ouro, prata, bronze, nos Jogos Olímpicos, Europeus e Mundiais) que merecia outro tipo de atenção e de relevo, por estar naquele lote de atletas portugueses de eleição];
– os nossos jogadores de futebol, convenhamos, ganharam um estatuto financeiro de tal modo confrangedor para quem trabalha, que podem projectar, efectivamente, a imagem desses políticos e eles não são insensíveis a isso e querem-no muito, por constituir marketing gratuito às costas da onda do prestígio desportivo deles jogadores, mas não só;
– outros países e outros políticos têm rejeitado, liminarmente, qualquer hipótese de se deslocarem lá, ao local do Campeonato, e os que se representam é com figuras secundárias.
A menção à hipótese de lá irem fazer política -interferindo no funcionamento de um estado soberano- cola ainda muito menos:
– o Catar [cujo regime é absolutista e hereditário, comandado pela casa de Thani desde o século XIX (e que tem muito, muito que se lhe diga)] não pode permitir que um qualquer político que ali entra, tenha a ousadia de “atropelar” o contexto do normal relacionamento diplomático, com presença esquisita nos eventos de croquete ou de caviar;
– quem o fizer -se fizer- revelará uma gritante incapacidade para o exercício das normas normais (perdoe-se o pleonasmo) da política externa;
– o Emirado é um dos locais onde há muito pouco tempo -quais pedintes- andámos a “vender” Portugal e é um investidor activo no mercado português…porque estes representantes o quiseram e até o incentivaram;
– e desde sempre se soube que Direitos Humanos, para aqueles lados, não têm qualquer valor; só interessam mesmo os petrodólares.
Assim sendo,
Tudo isto não passa de um disparate total!
E hipócrita nas suas explicações!
Então:
– não tivemos -e temos- políticos ligados a gentes do futebol de perfil muito duvidoso, já constituídos arguidos ou mesmo condenados? Claro que sim, até com advogados comuns;
– não temos a FPF e os contratos com o Seleccionador em investigação? Parece que sim;
– não temos cá as Odemiras desta triste Nação [tráfego humano, insalubridade, regime escravo sem direitos] que agem muito mais à vontade do que no Catar e que só foram descobertas pela vivacidade da nossa Imprensa, livre? É um facto, repetido hoje com os irmãos Timorenses;
– as nossas Mulheres não são vítimas de maus tratos e abusos e mesmo de femicídio [na perspectiva do homicídio provocado por outrem a mulheres e meninas por causa do seu género, teorizado pela PhD das Universidades do Cabo e de Harvard e da London School of Economic’s, Diana Russel, socióloga entretanto falecida, nascida na África do Sul e feminista com uma obra incomparável sobre os Direitos das Mulheres] dia após dia? É notório, agrava sucessivamente as estatísticas e o Estado faz pouco, muito pouco para o evitar, envergonhando-nos;
– e as nossas crianças pobres, não vivem nas mesmas (péssimas) condições das do Catar? Está à vista!
– não houve 2 Secretários de Estado já falecidos (competentes, até) que receberam intimação para se demitirem, justamente, por causa da utilização de uns míseros convites para o Futebol? Consta da história…e, se não me engano, estes 3 já estavam qualificados em altas funções.
Então o que podemos admitir que faz correr estes nossos políticos?
1. Tenho a sensação de que será fazer de conta que a Federação Portuguesa de Futebol e o Selecionador Nacional são gente de bem, acima da investigação criminal -pelos vistos em curso- e quererem ir demonstrar-lhes isso mesmo ao vivo, completando a Entourage, por um lado;
2. E ansiar que os milhões de milhões de seguidores dos nossos jogadores -em conjunto- nas redes sociais, que representarão o tal marketing de borla, os darão a conhecer ao Mundo -que é do que precisam- numa simples publicação de centésimos de segundo, por outro lado;
3. Ou, pura e simplesmente, finalmente, fazer vénia ao quarto país mais rico do Mundo!
Acredito bem que sim! Porque o resto não tem qualquer tipo de explicação racional…
E, atenção: eu joguei futebol; adoro futebol; vou ao futebol; sou adepto e já estive -na companhia da Minha Ana- em Campeonatos fora de Portugal a apoiar a nossa Seleção e à nossa custa.
!… Mas não vamos ao Catar …!


Já li e reli este artigo.
E acho que é, até, muito pedagógico no que nos ensina, sinteticamente.
Já fui procurar quem é a Senhora Professora Diana.
E que obra ela tem.
Obrigado Amigo Dr. Luís
Muito bem dito, só mesmo sendo um verdadeiro amante de futebol se desloca fora de Portugal para acompanhar o campeonato mundial. Bem aja Sr. Luís Amante
Muito boa a análise feita. Também não entendo a razão das três principais personalidades políticas do nosso País terem tanto interesse em manifestar o seu apoio à nossa selecção de futebol quando outras modalidades não lhes merecem o mesmo entusiasmo. Triste exemplo, considerando que estão a dar visibilidade notória a dirigentes que ignoram os mais sagrados direitos dos seus súbditos, nomeadamente os das mulheres que são as que mais sofrem.
No fim, trata-se de mais uma passeata à custa de mais um sacrifício de todos nós que continuamos carregados de impostos sobre impostos.
Haja o Deus!
Um abraço para o caro amigo e bom fim de semana para todos
Feio
Não ligo por aí além ao fenómeno futebolístico, pouca ou nenhuma empatia sinto pela generalidade dos futebolistas profissionais, supostos desportistas, e ainda menos pela estrutura federativa nacional, e respectiva “entourage”, que os enquadra.
O facto de estar a decorrer um campeonato mundial de futebol no longínquo Qatar, onde está presente a selecção portuguesa, carrega ainda mais as tintas nesta minha postura, pois, em meu modesto entender, quer a FIFA, a federação das federações, quer muitos dos seus quadros, fizeram lucrativas negociatas manhosas e prostituíram o pouco de desporto que ainda existe no futebol mundial para que este campeonato fosse realizado num país sem tradição futebolística e sem condições climáticas para a sua prática regular. Mas que tem muitos, muitos, dólares!
Claro que, a nível nacional e internacional, o futebol já não é um singelo desporto, de multidões, mas sim uma indústria global, com uma lógica empresarial própria, que movimenta verbas pornograficamente elevadas. Verbas essas que vêm, directamente, do bolso dos espectadores…
Porém, o Qatar é longe, as viagens e as estadias são caríssimas – e o mesmo se diga do preço dos bilhetes para assistir aos jogos naqueles faraónicos estádios! – além de que faz lá muito calor e nem sequer se pode beber sossegadamente umas “bejecas” que ajudem a acalmar os efeitos desse calor.
E embora também não esteja pessoalmente abrangido pela problemática LGBT+, e seu “mainstream”, sempre entendi que toda a gente tem o direito de poder viver a sua vida afectiva, e não só, da forma que melhor entender e lhe possa trazer maior sentimento de realização pessoal, inserindo-se na sociedade com esse seu viver sem choques nem exibicionismos folclóricos, na certeza de que embora todos possamos ser diferentes uns dos outros, basicamente somos todos iguais em dignidade e cidadania.
Ora, pelo que se sabe, este desiderato, aliás como todos os outros relacionados com os direitos humanos, em geral, e os das mulheres, em particular, não são aplicáveis no Qatar, país de costumes medievais e regime absolutista.
Isto sem falar nos lamentáveis custos humanos pagos para erigir todos aqueles estádios e outras estruturas destinadas a acolher os adeptos que quisessem ir assistir aos jogos, cuja quantificação se revela bastante nebulosa.
Portanto, por todos estes motivos óbvios, não vou, nem iria, ao Qatar acompanhar/apoiar a selecção nacional de futebol durante o campeonato mundial que ali se está a realizar. E nisso estou em completa sintonia com o Luís Amante.
Mas não me esqueço, nem posso ignorar, que sou cidadão dum país onde se leva muito a sério as coisas do futebol e onde a grande maioria das pessoas, nesta época de campeonato mundial, até para de trabalhar para assistir quanto mais não seja, aos jogos e treinos da selecção nacional.
Político que é político – sobretudo as altas figuras do Estado – forçosamente terá de se integrar nesta onda de entusiasmo futebolístico, sob pena de ser entendido que não está em sintonia com o sentimento geral da população que o elege!
E porque as coisas vão complicadas em termos de popularidade e de aceitação das dificuldades que o país vai ter de enfrentar, nada como estes momentos litúrgicos para animar as massas e sedimentar os apoios.
É o grande momento popularucho que todos eles adoram encenar…
Preferia que assim não fosse, mas, é a vida!
O autor Luís, é uma voz que não se cala diante da corrupção, da falta de ética, da falta de humanitarismo , da acomodação social frente à tantas irregularidades visíveis e claramente expostas. Que sirva de reflexão e inspiração para muitas pessoas para estarem mais atentas e motivadas para influenciarem mudanças num mundo que muitas vezes parece irremediável.
Parabéns , Luís pela qualidade do conteúdo de seu artigo.
O futebol pelo que movimenta em termos financeiros, pela paixão das pessoas, pelo espectáculo que traz e pela magia que oferece, na minha opinião, está e estará sempre ligado a controvérsias. Cabe a cada um no seu juízo, apelar pelas boas práticas e ajudar a eliminar às más práticas.
Excelentes palavras.
Um grabdr abraco
É realmente uma vergonha o que se tem visto a propósito deste evento uma colagem um aproveitamento despudorado de um nobre desporto e de uma causa universal que se traduz nos direitos humanos.