Luís Pais Amante

Recentemente soubemos que:

– os juizes do Tribunal Constitucional (Conselheiros) têm mandato de 9 anos, não renovável, desde 1998; e pensão vitalícia da CGA, se lá estiverem 10 anos, o que vai acontecendo sem se saber bem porquê; mudou-se o mandato de 6 anos, renovável e ficou “pendurada” a questão da vitalícia!

– ex-administradores da Erse (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) beneficiaram de benesses que o Estado não lhes tinha autorizado; foram, agora -passados seis anos da denúncia- condenados pelo Tribunal de Contas, à devolução conjunta de 1,8 milhões de euros, que não se sabe quando pagarão ou se terão condição para tanto!

– o Palácio dos Grilos (expropriado por Salazar no ano de 1943 e sempre em obras desde então) nunca mais estará em condições de alojar a Entidade para a Transparência, criada em 2019; a “transparência” não tem cara, nem casa e nunca mais estará presente nas ações dos actores das “tropelias” e Coimbra continuará a estar ligada ao atraso, como tem acontecido, sucessivamente!

– um medicamento para a diabetes também faz emagrecer; e vai de se distribuírem receitas para todos e mais alguns, até faltarem para os próprios dos diabéticos e terem custado 18 milhões de euros ao SNS que não tem dinheiro pra acudir à enfermidade!

– afinal “O Caminha” é de Lisboa…

E assim tendo sido, encontramos explicação absolutamente imaculada para todas as ações “enquistadas” que se vão somando ao dicionário colectivo do nosso bichinho de estimação, chamado de corrupção, que muitas vezes assume a forma do favorecimento ou do aproveitamento indevido.

Sim, na minha modesta opinião, a corrupção não é bem o que é, mas a forma como os fenómenos que a envolvem vão sendo percepcionados pelo Povo que a paga.

Mas podíamos, a partir destes actos mais ou menos desconhecidos do grande público, por encobrimentos de ordem diversa, inferir que se todos estes (rapazes e raparigas, digamos assim) podem fazer o que fazem; e se o fazem sem que nada lhes aconteça, então porque não “entro eu” neste jogo, que pelos vistos compensa e bem?

Triste País o nosso…

Pobre Povo…

!… não sei se concordam comigo, mas já ultrapassámos o patamar da culpa deste ou daquele, para observarmos a constância de um tique generalizado, do tipo vírus, que se vai propagando sem vacina …!

As manchetes dos Jornais destas últimas semanas é muito pior do que as manchetes da imprensa brasileira e há muito que ultrapassam as de Itália; constituem um terramoto autêntico da nossa Democracia.

Já escrevemos, como sabem, há muito tempo sobre corrupção e favorecimento, denunciando o fenómeno e incentivando a classe política a pôr termo a tudo isto, se é que ela (classe) quer mesmo ser considerada como honesta e não -como hoje é- como desonesta e oportunista.

Na minha opinião há que mudar de paradigma, antes que a coisa dê para o torto…

Mas, na verdade, o que se tem visto é que tudo gira à volta de benesses indevidas que crescem, crescem, sem controle e, na generalidade, verificamos que quem tem acesso aos cargos públicos o faz, não pelas regalias inerentes, que são pequeninas, mas das que se conseguem obter a partir de lá!

Essas, sim, chorudas, propiciadoras de vidas diferentes das que se alcançariam com trabalho honesto e dedicado o que se torna em habituação genérica.

Claro está que o cidadão comum não consegue perceber porque raio é que um qualquer titular do Tribunal Constitucional se deixará entrar num enredo destes, para apanhar em serviço uma meta que o beneficiará para o resto da vida, em contraposição com os seus pares que têm de trabalhar até ao limite da idade?

E também não consegue perceber porque é que as nomeações para a dita Entidade ainda não foram feitas? Ou porque precisa de ser instalada numa zona a precisar de obras?

E também não consegue perceber o tempo que mediou entre o serviço prestado por ex-governantes na Erse e aquele em que se decide que foram beneficiados ilegalmente?

Nem conseguem perceber porque motivo o SNS só dá por utilizações abusivas no receituário médico, quando o medicamento deixa de estar nos stocks das Farmácias?

Para já não falar do facto de o titular do mais alto cargo da Nação só agora ter apreendido a aparente falta da Entidade da Transparência, de que toda a gente fala há tanto tempo?

E, nunca perceberá o porquê de um qualquer Miguel querer vitimizar-se por ser provinciano e, assim, estar a ser discriminado pelo núcleo lisboeta do PS, quando tem no cartão de cidadão o seu nascimento, justamente, em Lisboa, local onde foi a “lapa” do Primeiro em quase todo o trajecto político deste?

O que será que liga estes dois e que leva um a passar a mão pelo pêlo do outro, a pontos de já admitir a existência de várias classes na constituição do estatuto triste de “arguido”?

Alguém disse um dia na Assembleia da República: “…organizar a esperança é nosso acontecer colectivo”…!

Saberão quem foi? E se está ou não metido nalgum destes imbróglios?

Pois eu sei; … e já não é Deputado!

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8 COMENTÁRIOS

  1. Excelente texto, tanto na oportunidade como na constantacao da verdade do país que amamos, infelizmente nem todos o amam como o Dr Luis Amante e milhões de outros portugueses, aparecem sempre os políticos oportunistas. Um grande bem haja a quem denuncia estás injustiças.

  2. Digo-lhe uma coisa, Amigo Dr. Luís: a situação está mesmo feia prás bandas do nosso querido Portugal.

  3. Análise maravilhosa e cheio de conteúdo denunciador sobre tantos e tantos que se dedicam cada dia a desorganizar a esperança coletiva portuguesa!!!
    Que suas palavras dêem força para àqueles que que querem e podem fazer mudanças.

  4. Não é á toa que o Luís Amante escreve este artigo, até porque não é mentira tudo aquilo que nos traz e que o preocupa, como deveria de nos preocupar a nós todos, cidadãos portugueses.

    Nos últimos anos, porventura fruto da assumida monomania obsessivamente focada no combate ao Covid-19, que se arrastou no tempo, aos poucos acumularam-se desatenções e falhanços – “inconseguimentos”, como diria uma ilustre ex-Presidente da Assembleia da República… – e o espaço político-partidário, a nível autárquico e governamental, acabou invadido pelos desatinos de alguns dos seus elementos.

    Já sem falar nas omissões e hesitações quanto à tomada de certas decisões, por vezes de forma incompleta, quando não consecutivamente adiadas no tempo, ao sabor das conveniências político-partidárias do momento, o que parece ser o caso do Palácio dos Grillos, em Coimbra, que o Luís Amante nos relata.

    Sempre entendi que a possibilidade de ocupar cargos públicos e desempenhar funções públicas, servindo o País (desde a Função Pública às Forças Armadas até às Magistraturas), constitui uma honra para qualquer cidadão, ou cidadã, bem formado(a). Mas essa pessoa deve servir, não servir-se…

    Infelizmente para nós todos, o fenómeno é transversal, na vida política do País. Fruto das pulsões individualista e egoísta subjacentes à cultura actual, em função da qual se move muita gente, e que, para o bem e para o mal, moldam a nossa sociedade.

    Também tal acontece nomeadamente nas zonas de contacto dos círculos políticos e empresariais, levando a que ocorra toda uma série de oportunismos, esquemas, negócios e aproveitamentos pouco éticos e sempre imorais, quando não francamente ilícitos e manifestamente ruinosos para os interesses públicos.

    Claro que, como também se sabe, a queixa-crime contra alguém com funções políticas, e a sua constituição em arguido, pode vir a ser – e também em Portugal já o foi, e o é! – utilizada, cirurgicamente, como arma de arremesso na luta política, travando adversários incómodos, ou minando a sua credibilidade e a da força partidária que representa.

    Contudo, resulta intolerável quando as pessoas envolvidas não entendem (ou não querem entender…) que, por via de regra, devem, dignamente, afastar-se de funções, quanto mais não seja para salvaguardar a imagem e a reputação do partido que integram, e a credibilidade pública dos projectos políticos que este defende e estejam a ser implementados.

    E o mais grave é que, muitas vezes, essas pessoas apresentam justificações ou desculpas tão patéticas que, desde logo, somos levados a duvidar da sinceridade e da veracidade das mesmas. Ou, pior ainda, a duvidar da sanidade mental de quem as invoca.

    Cada caso é um caso, sem dúvida, e a presunção de inocência é fundamental, mas a hombridade, a dignidade e o bom senso, conjugados com o interesse público, devem imperar na tomada dessa decisão.

    O saudoso Jorge Coelho, inesquecível “Coelhone”, deu o exemplo, mas tem sido difícil de ser seguido…

    Ainda assim, é facto que começa a sentir-se um certo cheiro a pôdre nos meandros da governação do nosso País. Não quero pensar que este seja o cheiro de um cadáver adiado, mas são poucas as hipóteses que nos dão de pensar diferentemente.

    E como eu, pessoalmente, gostaria de poder pensar dessa maneira diferente!

  5. É um gosto ler os textos do Sr Dr Luiz Amante, qual o mais certeiro. Como muito bem dito estamos a alimentar o monstro e os ventos que estão a espreita não serão suaves.

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