Marília Alves
Jair Bolsonaro afirmou, numa entrevista, que “pintou um clima” com uma menina venezuelana de 14 anos. E acrescentou também “agora a culpa é das meninas que andam arrumadas”. Este comentário, de cariz pedófilo, é feito com toda a naturalidade e após visita a uma comunidade carente de Brasília, onde viu uma situação de provável exploração de menores e não agiu como um homem adulto de 67 anos, muito menos como Presidente da República. Não chamou a polícia, a proteção de menores ou quem quer que seja. O mesmo Bolsonaro que se diz defensor da família tradicional e cristão. É muito moralista, mas não passa de um sacripanta.
É certo que o ainda presidente do Brasil, é dono de uma boçalidade e de uma ignorância desmedidas, mas foi eleito democraticamente, porque as pessoas se revêem no seu discurso. No caso, trata-se de um tema que vem sendo desvalorizado pela sociedade e, na maioria das vezes, quando há conhecimento de denúncias de abuso sexual de crianças, estas são imediatamente apelidadas de culpadas, sobretudo as meninas, porque “provocam sexualmente os homens”, com o seu comportamento e indumentária.
Nesse mesmo País, ocorreu um caso de incesto, que chocou o mundo. De uma menina violada pelo tio, desde os seis anos e que aos onze ficou grávida. A justiça brasileira autorizou o aborto, porém houve cidadãos que foram para a porta do hospital a gritar “assassina”. Houve quem questionasse “porque é que a menina nunca chorou “. Parte da sociedade culpou uma menina pelo abuso de um adulto, elemento da família, e que se aproveitou da proximidade à criança para cometer atos libidinosos.
Ora, entre adultos e menores, não “pinta um clima”. Na realidade o que pinta é crime. Um crime hediondo que é o abuso sexual de menores. As crianças não provocam, nenhum comportamento da vítima pode ser usado como motivo para o abuso sexual. O principal responsável é a pessoa que o pratica e nunca – em caso algum – o alvo dessa violência. Um pedófilo não é um desgraçado incapaz de resistir à tentação de abusar de uma criança. É um homem adulto e penalmente imputável.
No nosso País, esta problemática, também é desvalorizada, como se constatou com as recentes declarações do Presidente da República, no que concerne aos abusos por elementos da Igreja Católica. Face ao número de queixas chegadas à Comissão Independente que investiga os abusos sexuais disse “haver 400 casos não me parece particularmente elevado”.
É sabido que a Igreja Católica (e as outras) nunca cometem crimes. Quando muito tropeçam nuns pecados. E os pecados não vão para o Ministério Público. Os pecados resolvem-se no confessionário com três avés-marias e outros tantos padre-nossos! Esqueceu-se foi de referir que repugnantes são os abusos contra menores perpetrados ao longo de séculos pela Igreja e seus membros. E que eles escondem e protegem-se uns aos outros.
Este é o posicionamento de um presidente de uma república laica, conhecido dos beija-mãos ao Papa e aos bispos. E tanto assim é que, quando eleito, a primeira visita de Estado efectuada foi ao Vaticano beijar a mão ao Papa. O que nem Dom Afonso Henrique fez, mandou emissário. Mas esta relativização pública dos factos deixa uma sensação coletiva de insegurança e abandono social – pelo menos a quem empatiza com as vítimas – sobre as monstruosidades vividas. As pessoas não são e não podem ser números. É de apoiar a coragem das denunciantes vítimas destes poderes abusadores camuflados de caridadezinhas.
Marcelo jurou servir todos os portugueses e não apenas aqueles a quem intimamente (quiçá até inconscientemente) jurou lealdade. E as lealdades de Marcelo, são por demais evidentes, como se viu quando telefonou a um bispo, não só a avisar que o mesmo ia ser investigado, como a justificar-se pelo seu envio do caso para o Ministério Público, como se um presidente precisasse de justificar um procedimento obrigatório.
Quem também não consegue fugir dos holofotes da comunicação social, é o bispo do Porto, Manuel Linda, devido às suas constantes declarações e que correspondem à moral vigente dentro da Igreja. Acusado por uma vítima – abusada por um padre de Vila Real, desde os 13 anos – reitera que não se recorda “minimamente de nada parecido com essa denúncia”. A vítima, hoje com pouco mais de trinta anos, e com uma filha dessa relação, cuja custódia parental está atualmente em disputa, contou que falara com o bispo, logo no início dos abusos. A mulher afirma que este lhe terá dito que ela poderia parar com a relação, que seduzia o padre.
Sobre a Comissão Independente constituída para investigar os abusos sexuais na Igreja Católica, quando se começou a pensar na possibilidade, Manuel Linda disse que “ninguém cria uma comissão para estudar os efeitos de um meteorito”. Depois disso, ainda se manifestou publicamente “contra as famílias que substituem filhos por animais de estimação”, falando em “sociedades decadentes”. Esqueceu-se foi de referir quão decadentes e repugnantes são os abusos contra menores pelos membros da Igreja. E que eles escondem e protegem-se uns aos outros.
Este tema continua, assim, a ser desvalorizado – e está à vista – tanto pela Igreja, como por presidentes capitães da tropa, e até mesmo por presidentes professores doutores, o que significa que é um mal há muito enraizado na sociedade e que não será fácil a sua atenuação, muito menos a sua extinção, pelo que só há uma forma: a aplicação rigorosa da Lei, tendo os magistrados judiciais responsabilidade a esse nível, porque são “os guardiões da Lei”.
Assim sendo, temos que ser exigentes com o poder judicial, não deixar impunes agressores sexuais – e sejam padres ou sacristões -, pois o sofrimento das crianças vítimas tem de ecoar na consciência colectiva, pois perdura por anos e gera sequelas para toda a vida.



