Saudade Lopes

Ainda era uma menina, que não conhecia letras nem números, a viver um tempo de escuridão, em que apenas haviam os recursos da terra e a boa vontade dos homens com a sua luta diária para a sua sobrevivência.

Com caminhos de bois, sem eletricidade, nem água canalizada e, na grande necessidade de que a água não faltasse para o básico da sobrevivência, o meu avô materno comprou uma rodilha e um cantarinho de barro de dois litros. Objetos que muita importância tiveram para as lidas da família.

Pela minha cabeça passaram muitos litros de água e o chão, enlameado e pedregoso, viu muitos cacos de cântaras partidas, naqueles percursos entre Ribela e Casalito, local onde ainda hoje permanece o fontenário. Nesta envolvência de trabalho infantil, na qual ainda assim eu gostava de exercer, para dar o meu contributo, aprendi as ferramentas dos meandros da vida, as quais utilizo diariamente no respeito e na dignidade como cidadã.

O sentido da responsabilidade, em manter as vasilhas da cantareira cheias de água e o saber do valor indeterminável deste precioso líquido, que servia para a confeção das refeições e lavagem da loiça, incluindo os copos e cálices que serviam com vinho, aguardente, genebra e abafado os clientes de uma taberna, levou-me a aprender que a poupança e a preservação da água continuam a fazer parte integrante na vida.

O saber esperar com respeito, na fila, para encher o cântaro e aceitar trocar o meu lugar para que outras mulheres, desesperadas, enchessem os seus cântaros para irem fazer o almoço, foram atos que me marcaram.

O apreço pelos animais que desde a madrugada carregavam grandes pesos e fugazmente se dirigiam ao tanque do fontenário, para matarem a sua sede, acompanhados pelos donos que, muitas vezes, os picavam para eles beberem mais rápido, me trouxeram até hoje a admiração por todos os animais.

O estar atenta e ter de tolerar conversas dos adultos, sobre episódios muito pouco corretos sobre alguns “miseráveis” da aldeia, daqueles que só sentiam felicidade na humilhação dos outros. Os mesmos que de funil de latão na mão, em locais onde não eram vistos e a voz não era reconhecida, permaneciam na serra, e no silêncio da noite, a apedrejar e enxovalhar, com as suas línguas aguçadas de maldade, as boas gentes das aldeias. Mostravam a sua pequenez na noite, em que gritos medonhos arrepiavam quem os tinha de ouvir e, assim desta forma, inculta e horrorosa de malvadez, algumas das pessoas que não sabiam filtrar a verdade da mentira, se aproveitavam para glorificar o seu ego na maledicência.

Entretanto o tempo passou e os homens foram-se instruindo lentamente, libertando-se da idade da pedra, ou seja, do tempo da miséria. O mundo mudou e construíram-se Escolas, Institutos, Faculdades, e a população fez aprendizagens de humanidades, matemáticas, ciências, história, humanismo, ética, civismo, etc.

As famílias cresceram em virtudes, ensinaram a fraternidade e união, e delas saíram grandes professores e alunos, e restante corpo decente que se destacaram pelos seus ensinamentos e aprendizagens na construção de um mundo melhor. Dou por mim a agradecer pelo meu país e pelo meu concelho, as centenas e milhares de pessoas que se valorizaram e têm um papel fundamental na sociedade, cujas profissões se entrelaçam para o bem comum.

No meu território, nestes últimos tempos, mudaram-se os tempos e as vontades e, a grandeza de quem conduz o barco, tem sido de uma elevação divina, nos destinos de Penacova que a leva em beleza além fronteiras, aos mais altos patamares. Já não existe borracha que possa apagar tanta beneficência. No entanto, é com muita desilusão que permanecem aqueles que passaram nas mesmas escolas de valores e, nada aprenderam de relações humanas, nem mesmo na preservação dos bens da sua terra. E desde outubro do ano passado vejo gente de funis escondidos nas tecnologias, a comentarem da mesma forma grosseira, de linguagem aguçada de há décadas, revelando ódios políticos e tendo como apoio as pessoas da mesma ideologia. Ocorrências de destruição vão ficando escritas no livro do Mal Fazer, (espero que sejam casos isolados) – um barco de família vandalizado, a destruição atroz de bens na praia fluvial, um fogo no antigo hotel, as setas de informação aos caminhos de Lorvão invertidas…

Talvez precisem de encher um cantarinho de barro, beberem as águas do Bem e assim possam viver e promover a paz com ideias e opiniões respeitosas.

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