Luís Pais Amante
Os volumes escritos por Liev Tolstói “Guerra e Paz” têm merecido, ao longo dos tempos, apreciações de diversos tipos, embora seja sempre uma obra grande e uma grande obra.
Para mim -que os li completos numa publicação em francês durante 2 anos- quando tinha vintes- não está, hoje, em causa o rigor que o Escritor deu à sua descrição da época (1805 a 1820) nem ao que, na História, se convencionou designar por “Campanha da Rússia” de Napoleão Bonaparte.
Está em causa, especialmente, a sua fixação em São Petersburgo (moderno) e em Moscovo (velho) e, também, a dicotomia no pensamento dos povos destas duas regiões, já então. Na Rússia do czarismo! … em plena França do Imperialismo!
O Livro cria uma narrativa muito fiel e pormenorizada das invasões napoleónicas na Rússia e das suas batalhas, ao mesmo tempo que caracteriza a sociedade através da escalpelização de cerca de 500 personagens, que diz não terem nada de parecido com a realidade: seria ficção! Só que, quem escreve sabe que a caneta e o pensamento ou o pensamento e a caneta, constituem, sempre, realidades vividas ou, pelo menos, desejadas, tendentes a surgirem, como bem descreve a Psicanalista Didata Maria Fernanda Alexandre. Tolstói é sublime na descrição dos servos, das sociedades secretas e da guerra, embora muito polémico na montagem da sua teoria fatalista da História em que os acontecimentos obedeceriam a um determinismo histórico irrefutável…ou a um “final feliz”.
Todavia,
Para o que aqui nos interessa, importante é realçar o que na época foi digno de grandes discussões, de grandes reparos ao autor, de acusações direcionadas para a eventual distorção pura e simples da Rússia em guerra…
Estamos, naturalmente, a relembrar que os Veteranos da Guerra de então (Batalha de Borodino, em especial) nunca se conformaram com o tom apoteótico dado à Juventude Russa e aos seus feitos, em desfavor da marca específica que eles (Veteranos) na sua valentia e conhecimento trouxeram ao amortecimento da campanha que, apesar da debandada russa e da subsequente abertura a Napoleão das portas de uma Moscovo destroçada, foi considerada vitoriosa para os Jovens soldados que se exaltavam com o carisma do Czar Alexandre.
!… Tão vitoriosa que ainda hoje alimenta o mito de um poderio militar, afinal inexistente …!
Na Guerra da Ucrânia, onde Putin está há 7 meses -sem ter a coragem de lá ir- a palavra de ordem das suas unidades é “debandada”; os tais soldados Jovens não querem esta guerra de loucos, contrária aos ditames da civilidade; nem querem morrer…fogem do Imperador Putin.
Não só do campo de batalha, mas de toda a Rússia, para o mundo civilizado. Houve, significativamente, um retrocesso brutal nas ações em continuidade (invasão; guerra; desrespeito pelos princípios básicos do Direito Internacional; diferenciação nos direitos à existência pacífica; dissimulação nas relações internacionais e falsidade nas intenções e na fantochada dos referendos).
Se bem tentamos perceber este chefe oligarca, nascido em São Petersburgo, mas reconhecido na velha Moscovo (onde cultiva e destrói as benesses) ele ainda vai tentar abocanhar mais solo ucraniano. Parece alimentar-se de terra…
Ou, se o não conseguir abocanhar, vai reduzi-lo a escombros e a cinzas, que significam o inferno tenebroso do seu cérebro pequeno -que parece doente- e só se recorda dos retratos do estado em que deixaram Moscovo, aquando da ocupação de Napoleão.
É muito difícil alguém vaticinar o que por aí vem. É mesmo imprudente.
Só sabemos:
– que, até agora, se tem considerado que o Imperialismo ambicionado por Putin lhe vai sair
muito mais caro do que ele algum dia cogitou;
– que a Guerra não é ambicionada pelo Povo Russo (Povo Irmão do Povo Ucraniano) que está a encher as prisões e em manifestações reprimidas;
– que o esperto Putin, afinal, uniu e tornou maior a Nato que pretendia reduzir na sua
influência;
– que (contrariamente ao que defende) consolidou, unindo, a Democracia a Ocidente;
– que só tem parcerias com países considerados párias pela História;
– que conseguiu dar visibilidade à liderança do resiliente (e inteligente) Volodymyr Zelensky;
E não sabemos:
– em que versão do Livro de Tolstói se terá inspirado, ou se fala francês como era obrigatório os czares saberem?
Uma coisa parece certa: o tempo de exibir os Veteranos russos descontentes por volta de 1820, já passou mesmo há muito!
E nem esses obedeceriam a uma mobilização tão imperial, digamos assim, como a que se lembrou de chamar os Reservistas para a morte quase certa em cenários sanguinários que, inexoravelmente, serão julgados.












Um texto, muito correto e bem formulado. Os argumentos do autor realçaram ainda mais o quão ridicula é esta guerra.
É um facto que meu Amigo, Dr. Luis, consegue expressar-se de uma forma que dá para perceber facilmente o que é mesmo difícil e exige muitos conhecimentos.
Como filho de pai ucraniano e que lutou como jovem soldado no exército da Ucrânia em 1919 contra a invasão dos bolcheviques, sinto-me intensamente abraçado pela solidariedade de suas palavras ao povo ucraniano que vive, como seus antepassados, mais um trauma repetido.
Luis, a Ucrânia precisa de armas para se defender mas também precisa de palavras como as suas para resistir àqueles que desrespeitam os direitos básicos à vida.
Meus mais profundos agradecimentos e que a luta contra criminosos como Putin continue. Meu respeito e admiração por tantos russos e russas que com coragem enfrentam as mentiras. O
Creio que este senhor precisa de urgente tratamento psiquiátrico! Posso meter uma cunha para o internar num gulag ucraniano (enganei-me, será um gulag russo! eh, eh!) Gostei imenso de o ler, ainda me estou a rir!
Bem dito, sempre achei essa guerra ridícula, que está matar sonhos de pessoas inocentes.
A somar à demência do “líder”(???) supremo da Rússia, temos (agora?), também o patriarca ortodoxo a apelar à guerra santa. Isto é de doidos!!! Bem sei que a igreja ortodoxa russa é uma igreja que vive e sobrevive à custa do Estado Russo, mas fala de princípios morais e bons costumes e tem como base os ensinamento sumamente bons de cristo, totalmente opostos ao que este ser pseudo cogitante agora apregoa. É mais um prego no caixão da religião ortodoxa russa. Que perigo é, depender do Estado para viver e, pior, quando o grande Chefe vira facínora.
Para si, caro Colega Dr. Luís Amante, Colega mais velho, cheio de sabedoria, vai um abraço grande e parabéns pelo artigo.
Infelizmente, a história vai-se repetindo com o aparecimento de novas figuras narcisas e cegas de ambição.
Nem vou dizer da actualidade do tema que o Luís Amante aqui nos traz, para mais enquadrado por aqueles magníficos comentários sobre essa obra literária ímpar que é “Guerra e Paz”, de Tolstoi.
A Ucrânia, as suas instituições e a sua classe política não serão, porventura, o Paraíso Celestial e a sua corte de anjos e arcanjos. Certamente terão alguns defeitos e viciações, mas, pelo menos, não procuram, autocraticamente, eternizar-se no poder, como os de alguns dos países vizinhos…
Além de que é um país livre, independente e com fronteiras internacionalmente reconhecidas há muitos anos. E também é um país sem pretensões expansionistas, com governantes democraticamente eleitos, sem reparos de maior, e cuja população se identifica maioritariamente com a sociedade ocidental, livre e aberta.
De repente, este país foi alvo duma ignóbil agressão militar, insidiosamente preparada pelo seu poderoso vizinho, a Federação Russa, com o apoio da indefectível Bielorrússia e de umas tantas tribos ucranianas ditas “pró-russas”.
O tempo passa, as baixas adivinham-se elevadas para ambas as partes, e no terreno alastram a destruição material e a carnificina de civis, provocadas pelos invasores e seus apoiantes. E, agora, uns supostos referendos promovidos e supervisionados pelas forças invasoras que, sem surpresa, aprovam, quase por unanimidade, a anexação desses territórios pela Federação Russa…
No meio disto tudo, a sacrificada população ucraniana e a generalidade das pessoas interrogam-se quando, e como, pararão estas vergonhosas violações do direito internacional.
Porém, convém ter em linha de conta quem detém o poder na Federação Russa.
O “grande líder” federativo é um esbirro de profissão que, para o exercício das suas funções governativas, não só tratou de alterar a constituição para poder eternizar-se no poder, como se rodeou de alguns outros ex-esbirros seus companheiros e também de umas personagens inenarráveis a que, impropriamente, costumamos chamar de “oligarcas” que se caracterizam por misteriosamente terem enriquecido, quase de um momento para o outro, após o “grande líder” ter chegado ao poder…
Claro que devem obedecer, sempre, às directivas do “grande líder”, sob pena de eles e/ou suas famílias desaparecerem misteriosamente, e sobretudo, não devem manifestar quaisquer ambições políticas.
É que, deste que esta personagem assumiu o poder da Federação Russa, há mais de vinte anos, o debate político interno processa-se com recurso a uns singulares argumentos chamados “envenenamento” ou “assassinato”, á luz do dia. Nos casos porventura mais benignos, o argumento fica-se pela “prisão por período indeterminado”, durante o qual, por regra, o opositor acaba por adoecer gravemente.
Saudosista do império russo, e julgando-se a reencarnação do imperador Pedro II, esta personagem a quem já alguém chamou de “homo sovieticus”, pavoneia-se entre os seus como macho alfa de opereta, mas a todos nos prejudica bastante.
Não podemos (não devemos!) ignorar que o que está em causa na guerra Ucrânia/Rússia também nos diz respeito.
Desde logo pelas implicações imediatas, de natureza material, resultantes dos embargos e retaliações que os mesmos originam (instabilidade económica, inflação, escassez de combustíveis, dificuldades de abastecimento, etc.) que irão acentuar-se com a chegada do Inverno e uma previsível recessão económica generalizada na União Europeia.
Mas, também, pelas repercussões a longo prazo que podem advir para o mundo ocidental cujo projecto civilizacional, económico e social, com o qual todos nós geralmente nos identificamos, pode ser posto em causa consoante o desfecho deste conflito.
Lembrando o refrão da “Cantata da Paz”, com a devida vénia a Sofia de Mello Breyner Andresen: Vemos, ouvimos e lemos – Não podemos ignorar!
A verdade impera e sempre prevalecerá, que não sejam mais ceifadas vidas de inocentes, por ganância deste opressor.