Marília Alves
Vivemos num país de brincadeira. Esta frase não é minha e tem sido atribuída a António Champalimaud, quando foi viver para o Brasil. Mas na realidade é o que sinto, e muitos cidadãos sentirão o mesmo. Temos um país pequeno, um jardim à beira-mar plantado, na costa ocidental da Europa, com um clima ameno e pessoas acolhedoras. Poderíamos ser um dos melhores países do mundo, mas temos o desígnio de ter governantes medíocres, alguns não a nível intelectual, mas materialmente fazem parte de uma porta giratória onde circula a corrupção, o tráfico de influências, os oportunistas e os facilitadores de negócios. Por exemplo, a Bélgica, um país com menor dimensão territorial e com uma população mais ou menos semelhante à nossa, encontra-se altamente desenvolvida, estando entre as maiores economias do mundo. Aliás, basta comparar o salário mínimo dos dois países, e está tudo dito.
O flagelo dos incêndios florestais vem a destruir e a empobrecer, ainda mais, as populações do interior de Portugal. O interior esquecido e ostracizado pelo poder central. O facto é que continuam a deflagrar, ano após ano, nas diversas regiões do nosso país, contribuindo para uma brusca ruptura dos diversos ciclos e cadeias ao nível dos ecossistemas, com grande perigosidade para as populações pela elevada frequência que surgem atualmente e por uma violência nunca vista, com métodos incendiários cada vez mais sofisticados. Quantas pessoas perdem tudo o que têm e lhes dá algum rendimento, cujo património, muitas vezes, foi constituído com o esforço e trabalho de várias gerações.
Em 2017, há cinco anos, mais de uma centena de pessoas perderam a vida, algumas delas no incêndio de 17 de outubro no nosso concelho, inclusive uma vizinha na minha aldeia de naturalidade, que não conseguiu abandonar a sua casa a arder. Ouvi descrições de terror por parte de quem viveu essas tragédias por dentro, populações inteiras deixadas à sorte no meio do inferno de chamas e depois destas o das cinzas. Cheiros que se entranhavam no corpo e na alma. Pedrógão e o Pinhal Interior foram então proclamados prioridade nacional. Nada podia ficar como dantes, bradava-se em cada discurso político. Mas ficou. E, na maioria das situações, até ficaram pior. Nessa altura, o primeiro-ministro, António Costa, prometeu que aquela região seria um exemplo para o país. E acrescentou então: “A pior coisa que pode acontecer é a floresta crescer como estava, porque hoje todos sabemos bem que deixar a floresta crescer livremente é criar condições para que ela seja combustível”, não tendo, contudo, até agora, feito nada para alterar as condições, como é visível à vista desarmada. Isto traduz um claro propósito de se desresponsabilizar pela direccão dos destinos da nação, tentando atabalhoadamente culpabilizar os que perderam a própria vida e os bens que constituíam, quantas vezes, as suas únicas fontes de rendimento, sendo certo que estes são apenas vítimas e não titulares de qualquer poder executivo ou legislativo.
Ora as vítimas são as populações circunscritas a um interior esquecido pelo poder politico, mas é mais fácil responsabilizar os proprietários do que tomar medidas de ordenamento e prevenção, e guardar os fundos que chegam de Bruxelas para outros fins. Não houve mudanças estruturais, nem sequer conjunturais. Estranhamente os dinheiros de Bruxelas não são para criar vida no interior. Não são para fazer a adequada gestão florestal e defender parques naturais. Não são para defender as árvores que respiram por nós, para nos dar o ar que respiramos. Tudo se justifica em intempéries naturais, quando interessa e é cómodo não combater as verdadeiras causas. Passámos por campanhas eleitorais em que o assunto foi tabu. Nem a oposição se meteu nisso. Não interessa colidir com os interesses instalados, que claramente não têm interesse na província.
Está a vista que este cenário de terror está a repetir-se no corrente ano e vai replicar-se no futuro. O incêndio no Parque Natural da Serra da Estrela, património da humanidade, é a confirmação do supramencionado posicionamento do nosso governo relativamente a este flagelo, já que exige aos proprietários que cuidem das suas parcelas, quando toda a área florestal sob a alçada pública, está completamente negligenciada, sendo que os proprietários estão sujeitos a coimas, mas o Estado claramente que não. Sublinha-se agora as condições climáticas para suprir falhas, ouvem-se promessas de debates alargados e grandes consensos. Como sempre serão totalmente inconsequentes e para “tapar o sol com a peneira”. No terreno tudo vai continuar igual e na mesma. A Serra só terá interesse para dela tirar o lítio que tem nas entranhas e, para o efeito, há que proceder à sua desflorestação.
Mas não só a Serra da Estrela ardeu. E, por todo o país, é incontestável que se verificaram (uma vez mais) falhas brutais e incontornáveis no combate aos incêndios. Falhas de comunicação e coordenação que quem combate os incêndios tem vindo a denunciar. Em 2017, o Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, designado por SIRESP, não funcionou nos incêndios de Pedrogão.
Cinco anos depois, voltou a falhar e o ministro responsável teve o desplante de vir dizer “que o problema não era do sistema, mas de quem o queria utilizar”, sendo certo que quem o adquiriu foi o actual primeiro-ministro e custou centenas de milhões aos portugueses. E tem como accionistas empresas dos grupos ex-BPN, ex-BES e ex-PT… A tecnologia usada pelo SIRESP já era considerada obsoleta naquela altura. Uma “rede especial de comunicações” para os incêndios que falha, grosseira e múltiplas vezes,
quando há incêndios … ou seja, quando era necessária.
Nesta conformidade é claro e óbvio que todo este desinteresse pelo interior só pode ter por detrás outros interesses que não o legitimo desenvolvimento do país, uma vez que não se faz despesa pública para defender a ruralidade, tal como se faz para salvar a TAP, o BES, a CP ou a Carris, entre outras sanguessugas dos nossos impostos. Se é para contrair despesa, que sirva os portugueses por igual, independentemente do local onde residem. O nosso País até aos anos 60/70 foi essencialmente agrícola, faz parte do nosso ADN como nação o espaço rural. Se o poder não investe no mesmo é porque o que está em causa não é o interesse público nacional, porque sabemos que todos os países desenvolvidos valorizam as suas raízes, logo obviamente que o desinvestimento que se verifica em Portugal jamais pode ser justificado a outra luz que não da porta giratória onde circula a corrupção, o tráfico de influências, os oportunistas e os facilitadores de negócios.
Em suma, e apesar tudo o que foi dito ser facilmente constatável, nós eleitores temos a maior responsabilidade na medida em que votámos neles. E lá vamos cantando e rindo …




Em primeiro lugar, um abraço de colegas (entre colegas) para a Autora deste artigo!
Todos sabem que eu (que ainda não conheço a Marília Alves pessoalmente) acho que ela constitui um activo muito valioso da nossa terra no modo como nos oferece a sua opinião genuína no PenacovaActual.
… e ainda não lhe conhecia esta forma subtil como hoje abordou a problemática tratada …
É que nem disse que o “Lá vamos cantando e rindo” era um dos lemas da Mocidade Portuguesa!
Tão importante que iniciava o hino!
Parabéns
Um grande bem-haja pelas simpáticas palavras, Dr. Luís Amante.
É verdade, era assim que se iniciava o hino da mocidade portuguesa, por vezes, parece que regredimos no tempo!
Também acompanho o seu trabalho, que muito aprecio: Tive pena de não estar presente na apresentação do seu livro, em Penacova, mas à data, por motivos de saúde, não me foi possível, pelo que aproveito agora para lhe desejar muitos êxitos.
Grande abraço