Saudade Lopes

Mergulhar num tempo de descanso é tão importante como o ar que respiro; esquecer as rotinas diárias provoca-me a sensação de bem estar; dias em que a intensidade dos afazeres se quebra e dão lugar ao rejuvenescimento do corpo e da mente. Há décadas atrás não tinha a consciência nítida dos vários benefícios que umas férias me poderiam proporcionar, no entanto e sempre a contar os tostões ou cêntimos, procurávamos meios para um descanso bem merecido ano após ano, em diversos moldes e locais; nós os dois, com os filhos, com os genros e netos, com amigos, com outros familiares, ou com vizinhos que em grupos se encontram casualmente, às vezes a viverem bem perto de nós. Tempo de férias é um acontecimento único e totalmente transformador nas lembranças que ficam para a vida; destaco o mais aventureiro e mais” fixe” como intitulam os nossos filhos. “Uma carrinha Urban de 6 lugares, carro de trabalho nas obras, fez de transporte e alojamento numa praia para casal , 4 filhos e sobrinha, sendo que a criança mais nova tinha um ano de idade e a mais velha treze anos. Para alimentar esta gente numa semana, valeu a fornada de pão, os legumes, tubérculos e fruta apanhados na horta. Estas férias realizadas hoje, teriam um Juiz a julgar-nos como pais negligentes e a Comunicação Social com os seus comentadores a encherem as televisões de palavras vãs e inúteis na sociedade. Estes dias de descanso realizaram-se na praia de Mira, onde os enlaces familiares se concentravam com sorrisos e gestos de fraternidade. Não faltou o cinema, na sala de convívio dos pescadores. Ainda me lembro que vimos  “O mentiroso compulsivo”, filme de gargalhadas para todos, excepto eu, que pelo cansaço e o sono me deixei adormecer, sendo ainda hoje  “gozada” pelo grupo em causa; isto é sem dúvida, a história e as memórias que acompanham e eternizam momentos da minha família. 

Com o passar dos anos e com a evolução dos tempos outras oportunidades têm surgido no território nacional ou não; na praia ou nas montanhas, as férias continuam a ser um tempo desejado e propício ao engrandecimento da minha realização pessoal e conjugal .
 
Este ano, fazemos uma avaliação daquilo que trouxemos na bagagem das nossas mentes; memorizamos pessoas , acontecimentos e beleza num local turístico que atraí milhares de visitantes em épocas balneares.
 
Com a temperatura adequada ao período de Verão e sem rajadas de vento, o mar calmo e as águas quentes convidam-nos a mergulhar, apesar de não sermos amantes da praia. A visita ao Lagi Les Conta d’ Algar é uma realidade diferente para quem, como nós se prende às origens da natureza, em que debaixo de montanhas de pedra, as nascentes brotam com abundância, num ano em que a Península Ibérica se depara com tanta falta de água. 
Durante esta viagem, depois de percorrer muitos Km no mesmo autocarro,  reencontrei algumas pessoas que fizeram parte do meu ciclo de vida; ali despoletaram memórias e reviveram-se as nossas histórias de décadas. Momentos bastante aprazíveis dadas as circunstâncias duma vida agitada que nos vai mantendo distantes e dispersos. Uma simples expressão dum “olá, lembras-te mim?” tornou ainda mais enriquecedor estes dias, pela forma como recordamos o passado e vivenciamos o presente.
 
Contemplar pessoas conhecidas ou não oriundas da minha terra e do meu país e pela forma carinhosa e respeitosa como se relacionam é acreditar num mundo de afectos. Relacionamentos de ternura entre pais e filhos, marido e mulher, namorado e namorada, avós e netos, ou bisnetos é duma grandeza humana, que dificilmente alguém me pode apagar. 
 
Num desses dias, fixo o meu olhar numa mulher tipicamente portuguesa, viúva, estatura baixa, enrugada pela sua bonita idade, cabelo grisalho, um penteado composto por um “toutiço”, coberto com uma pequena rede, (parecida com a minha avó), que partilha a mesa, a praia, os passeios e os sonhos com aqueles que são os seus filhos , netos, bisnetos, aqueles a quem ela educou, mimou ou até mesmo por eles chorou. Numa das noites houve bailarico em que na animação tínhamos músicas portuguesas, desfrutando dum bom pé de dança, a avó e neto, deslizam numa simbiose perfeita. Na praia, um idoso com dificuldades motoras a ser amparado com a sua moleta artificial, e pela moleta humana, o seu neto, um jovem universitário que o segura com dedicação e ternura, naqueles momentos to importantes na vida duma idoso, quando a fragilidade lhes ocupa o corpo.
 
E porque sou apaixonada por famílias que vivem em perfeita harmonia entre gerações, estes foram sinais de esperança num mundo melhor, que foram acontecendo, e que se espalham por aí em todos os recantos, cabe me estar atenta e valorizá-los.
A tornar presente, estes momentos de prazer e lembranças, devemos um especial agradecimento ao Márcio Lopes e sua esposa Sandra Pereira, naturais da minha terra, filhos de gentes da minha idade, da minha juventude, jovens arrojadas e empreendedoras que colocaram à nossa disposição a escolha deste e outros destinos turísticos de forma organizada e cuidada. E para animarem o percurso souberam ir ao encontro dos nossos gostos musicais. Ao ouvirmos José Cid, talvez sem darem por isso, propositou-se na perfeição, onde a estadia na cabana junto à praia, espaço digno e descontraído para que a sintonia dos nossos corpos falassem silenciosamente do amor que mantemos um pelo o outro. Com isto e porque gostamos de ser felizes e ver outros felizes, deixamos a sugestão a todos os casais mais novos ou mais velhos, invistam no vosso relacionamento , façam férias, descontraiam e enrolem-se sem medos ou preconceitos, em todos os campos da vida. Também todas as outras pessoas desfrutem da vida, e façam férias não importa o local, importa é parar.
 
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