David Gonçalves de Almeida

A edição deste livro em 2016 pelo Município de Penacova inscreveu-se nas celebrações do primeiro aniversário da inscrição do “Beato do Lorvão” como pertencente à Memória do Mundo da Unesco. Este códice, datado de 1189 e pertencente ao Mosteiro de Lorvão, é um dos trinta e três testemunhos do Comentário ao Apocalipse do Beato de Liébana.

O texto de apresentação é do Presidente da Câmara Municipal de Penacova, Humberto José Baptista Oliveira, enquanto o Prefácio foi da responsabilidade do autor, Aires Nascimento. A apresentação da obra e do autor esteve a cargo da Professora da Universidade de Coimbra, Maria Alegria Fernandes Marques, também ela autora de estudos sobre Lorvão.

Refere Humberto Oliveira que “a obrigação do Município de Penacova é fazer com que a história do Mosteiro de Lorvão seja conhecida por um alargado número de pessoas. Por mérito de diversas entidades, Lorvão está em ebulição. A construção do novo Museu e a recuperação do Órgão de Tubos efectuada recentemente e a musealização do espaço construído, a acontecer, são com certeza contributos para dignificar a história deste importante monumento nacional.”

Por sua vez, Aires Nascimento salienta um aspecto importante: “Trazendo a público o que é nosso, fazemos questão de perceber que ele faz parte de um todo e que este pertence a uma comunidade alargada-que queremos global, nesta aldeia que se estende a fronteiras planetárias. Nela queremos participar de pleno direito e por isso erguemos a nossa voz a partir das nossas terras de Lorvão. Aqui, nestas terras antigas de fronteira com o Mondego, tomaram assento gentes que mal conhecemos e que só levantando o véu dos tempos nos arriscamos a desvendar.”

“Se o conhecimento contagiar outros, tanto melhor para apreciarem o que é de muitos e deve servir para chegar a muitos: assim haverá culturas mais ampla.” – acentua de igual modo.

Estrutura-se em oito capítulos: após um capítulo introdutório, sobre o “scriptorium lorvanense” do século XII propõe, ao longo dos capítulos seguintes, um itinerário por um conjunto de códices, hoje repartidos entre três instituições culturais:

– “O Comentário ao Apocalipse”, por Beato de Liébana, datado de 1189

– “O Livro das Aves”, de Hugo de Folieto, de 1183

– “Vita et Miracula Sancti Thomae Cantuariensis”, datado de 1185

– “Passionarium Hispanicum”

– “Compilatio Valeriana”

O livro termina com uma síntese de conjunto sobre os códices analisados e o seu significado para a construção da memória do Mosteiro de Lorvão.

No primeiro capítulo, argumenta-se sobre a importância do “regresso a Lorvão” e aos seus códices: Aires Nascimento revisita, de forma breve, as questões relacionadas com a saída dos monges beneditinos do Lorvão e a instalação da comunidade cisterciense feminina. “É no contexto dessa comunidade beneditina masculina, de tradição hispânica, que a produção destes códices deve ser compreendida, bem como a sua representatividade, entre uma tradição que se tenta preservar, mas, em paralelo, assimila o que lhe vem de fora.” – escreveu Catarina Fernandes Barreira na revista Lusitânia, acrescentando: “Aires Nascimento dedica dois capítulos ao “Comentário ao Apocalipse”, considerado um manuscrito emblemático pelas atenções que o mundo académico lhe tem dedicado, pelo interesse que continua a espoletar nos investigadores, nomeadamente em torno das suas iluminuras e, por fim, por estar inscrito no Registo Memória do Mundo da UNESCO.”

Outro capítulo é dedicado ao “Livro das Aves”, onde Aires Nascimento o compara, do ponto de vista do conteúdo textual, com os códices homólogos de Sta. Maria de Alcobaça e de Sta. Cruz de Coimbra. No caso do códice do Lorvão, o “Livro das Aves” está associado a um parágrafo de Sto. Isidoro sobre a águia e um capítulo do Hexameron de Sto. Ambrósio, o que, segundo o autor “deixa em aberto sugestões de leitura”.

Como referido, o livro termina com um capítulo síntese sobre a memória de Lorvão, onde – de acordo com Catarina Barreira – “o autor faz uma análise em contexto da produção do scriptorium lorvanense no século XII, da circulação dos códices e do seu uso. Esta síntese fornece ao leitor uma perspetiva renovada sobre a importância cultural do mosteiro: uma comunidade monástica bem organizada, cujo scriptorium responde aos interesses culturais dos monges e que recolhe à sua biblioteca textos importantes, quer na continuidade com a tradição anterior, nomeadamente a hispânica, como o Passionarium (e o Liber Commicum), e também o Beato, quer na inovação, através da cópia de textos recentes, como a Vita et Miracula de Tomás da Cantuária e o De Avibus, de Hugo de Folieto.”

Ainda na opinião de Catarina Barreira, “este estudo constitui uma abordagem sólida e fundamentada sobre o scriptorium do Mosteiro do Lorvão antes da instalação da comunidade cisterciense feminina. Em suma, a síntese proposta por Aires Nascimento constitui uma abordagem sólida e consolidada, fruto amadurecido de um dos mais importantes investigadores portugueses e amplo conhecedor dos scriptoria monásticos medievais, das suas dinâmicas e características, da sua importância cultural e vitalidade.”

NOTA SOBRE O AUTOR

AIRES AUGUSTO DO NASCIMENTO – professor catedrático jubilado (2008) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Padre da Sociedade Missionária da Boa Nova. Entre 1990 e 1991 exerceu as funções de presidente do Instituto Português dos Arquivos. De 1994 e 2008 dirigiu o Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa. 

O currículo de Aires Nascimento conta com  uma extensa bibliografia, inclusivamente sobre Lorvão: O “Comentário ao Apocalipse” de Beato de Liébana: entre gramática e escatologia- In: Euphrosyne Ser. NS, vol. 28 (2000)

– Um novo testemunho do passionário hispànico: un códice lorvanense da primeira metade do século XII ( Lisboa, ANTT, Lorvao, C. F. Livr. 16).Sub luce Florentis Calami: homenaje a Manuel C. Díaz y Díaz / coord. por Manuela Domínguez García, 2002

– Ao encontro do quotidiano: mecanismos para o estudo da expressão latinomedieval através do Liber Testamentorum do mosteiro de Lorvao. (2007) – In: Monarquía y sociedad en el Reino de León. De Alfonso III a Alfonso VII Pt. 1

–  Liber testamentorum Coenobii Laurbanensis / [presentación de Aires A. Nascimento y José Ma Fernandez Catón] / León : Centro de estudios e investigación “San Isidoro” , 2008

– Edição do Cartulário de Lorvão: para a valorizaçao de Património arquivístico comum. (2011) – In: Quando Portugal era Reino de Leão.

– Codices antigos de Lorvão: um manuscrito perdido, mas referenciado. (2014) – In: Wisigothica. After M. C. Díaz y Díaz

Aires Nascimento participou no processo de candidatura para inscrever o chamado “Apocalipse de Lorvão” no Património Cultural da Humanidade. A UNESCO incluiu precisamente no Registo de Memória do Mundo esta obra, integrada na candidatura ibérica designada por “Os manuscritos do Comentário do Apocalipse (Beato de Lièbana) na tradição ibérica”.


FICHA BIBLIOGRÁFICA / BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

Os antigos códices de Lorvão : balanço de pesquisa e recuperação de tradições / Aires A. Nascimento. – Penacova : Município de Penacova, D.L. 2016. – 60, [1] p. : il. ; 23 cm. – ISBN 978-972-99628-6-8

Link persistente: http://id.bnportugal.gov.pt/bib/bibnacional/1954056

 

Artigo anteriorPrograma Seleção, Gastronomia e Vinhos distingue restaurantes da região de Coimbra e um é de Penacova
Próximo artigoIncêndios florestais: cientistas estudam novos planos de emergência para proteção das populações em risco

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui