Gosto de França. Acho que sempre gostei. Antes era de lá que vinham os caramelos do mês de Agosto (só crescidinha soube que não eram franceses mas sim espanhóis…) Também era de lá que vinham os primos, tios e tias. Gostava particularmente da minha prima Isabel e do seu irmão João Marques. Do resto das primas as memórias andam longe de ser agradáveis. Depois foi a minha vez de ir. E fui indo. Sempre que posso vou. Gosto de ir, gosto mesmo de ir. É que França tem coisas fantásticas em muitas áreas, dai que seja muito bom ir (e voltar!!!) Gosto dos patês, da charcutaria, do queijo, do vinho (claro!!!!), dos mercados de rua (onde os olhos e o nariz comem por antecipação e estimulam o paladar até ao limiar do doloroso) da arquitectura acolhedora, da paisagem urbana e da rural também. Paris, a cidade luz, que ilumina os sonhos dos tantos amantes, é a musa inspiradora de muitos escritores, é o cenário de obras fantásticas de hoje, de ontem e por certo também as de amanhã. A vida boémia, tão bem descrita por Charles Aznavour em La Bohème, é a imagem de marca desta cidade.

São de França as palavras hoje a correr, de Gustave Flaubert, nascido a 12 de Dezembro de 1821, há 200 anos. Hoje é um marco na literatura, escreveu pouco, apenas seis livros, mas em cada um foram escolheu as palavras perfeitas para que cada frase fosse nada menos do que a perfeição. Nunca casou com nenhuma mulher por o ter feito com a escrita, precisava de todas as suas noites para perseguir a palavra certa, que por vezes era demasiado fugidia. A comunidade intelectual da época não morria de amores por Flaubert dada a sua ausência total de interesse politico, o que aos olhos de vozes interventivas da sua época era um pecado mortal.

A nós leitores resta-nos agradecer a excelência de Flaubert. O realismo que impôs na literatura, o cinismo, o sarcasmo, a capacidade de confrontar o homem e a mulher com a sua estupidez, a sua mediocridade, a sua falta de valores sociais sólidos, a sua pobreza intelectual foram um importante marco literário. Hoje da Serra vai correr Madame Bovary.

Gustave Flaubert

Madame Bovary

“Carlos não podia ficar por ali. A senhora sua mãe enérgica. Envergonhado, ou antes fatigado, o senhor seu pai cedeu sem resistência, e esperou-se mais um ano para que o garoto fizesse a primeira comunhão.”

“Ema, a principio, sentiu um grande espanto; depois desejou ver-se liberta, para saber que coisa era ser mãe. Mas, não podendo fazer as despesas que queria, ter um berço do feitio de um barco com cortinas de seda cor de rosa, e touquinhas bordadas, renunciou ao enxoval, e, numa crise de amargura fez a encomenda a uma costureira da aldeia sem escolher nem discutir.”

Carlos Bovary é só um estupido. A vida toda. Foi um garoto estupido que fazia o que a mãe mandava, continuou pela vida fora a ser estupido e a fazer o que a mãe mandava. Um dia, já casado, apaixona-se pela filha de um seu doente, um rico lavrador. A sua mulher desconfia de tantas visitas médicas e fica ainda mais desconfiada quando descobre que na casa do paciente há uma belíssima donzela e educação esmerada. Falar francês era obvio mas vinha com o outro requisito educacional de excelência, tocava piano (e lia romances de amor). Um confronto verbal mais intenso entre a mulher de Carlos e a sua mãe deixa-o viúvo e livre para correr atrás do amor da sua vida.

O casamento com Emma é levado a cabo, para ele é a concretização de um sonho de amor, tudo está perfeito, para ela falta tudo. O Amor com que sonhava estava longe do amor que tinha. A sua cabecinha oca e estupida estava prenhe com todos os disparates que leu. Desiludida foi procurar o Amor nos braços que se lhe abriram, claro que não o encontrou. Pelo seu segundo e último amante, Leon, contraiu tantas dividas que acabou por se suicidar. Pelo caminho ficou uma filha pequenina, por quem nunca teve grandes sentimentos. Foi uma mãe inexistente, mas uma perseguidora incansável do Amor, que nunca encontrou e que nunca percebeu que apenas não existe. O marido só percebeu o que aconteceu na sua vida depois da morte da mulher e não conseguiu superar a vergonha.

O sentimento que mais me marcou durante a leitura deste livro foi a incerteza e alguma ansiedade. Estes sentimentos foram-me provocados pela a insatisfação permanente de Emma, a sua ansiedade, a sua inanição para tudo o que não fosse a perseguição do seu ideal de amor por oposição ao que era capaz de fazer se achasse que o Amor estava ali ao alcance da sua mão.

Flaubert acabou por ir a tribunal por parte do teor deste livro, o adultério, que ofendia a moral social hipócrita. Foi ilibado, mas as boas famílias não permitiam que as suas “meninas” sujassem os seus olhos com tais palavras. Da estupidez humana, a personagem principal da obra, nenhum moralista se queixou…

Boa semana com livros!!!

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