Iria vestir-me a preceito. Perfeito. Do mais charmoso e bem feito que já se tivesse visto por aí. Ficaria irreconhecível, como imaginam. Mas adiante. O aspecto não é o mais importante e acontece que eu também não quereria ser um Pai Natal bom ou um bom Pai Natal. Pelo contrário. Seria mau. Muito mau. Péssimo. Faria tudo ao contrário do que dele se espera. A começar pelas prendas. Não daria nem uma! A ninguém. Nem mesmo às crianças. Muito menos às crianças, aliás. Como tal, na noite de consoada, em vez de distribuir plástico e papel pelos sapatinhos, arrancaria mundo fora, determinado e desembaraçado, com um único propósito: tirar das nossas casas todas as prendas dos natais passados. Eu avisei que seria mesmo muito mau. Pior, como não saberia distinguir as prendas de Natal das restantes que por aí andam em estantes e gavetas (ou esquecidas em maletas), faria limpeza geral. Os quartos das crianças ficariam imaculadamente vazios e nós, adultos, ficaríamos sem perfumes e meias. Talvez deixasse um par ou outro, vá lá, e um pijama assim menos garrido. No restante seria implacável. Sairia no princípio da noite, como já disse. Mas, antes disso, teria de resolver problema importante. A noite de Natal da Lapónia, lá no norte da Finlândia, dura o dia (quase) todo. É estranho, dito assim, mas é verdade. Não há dia de sol à vista por essa altura. Quando muito, uma horinha de fugidio lusco-fusco. Saber distinguir o dia da noite nestas latitudes no início do inverno é…um inferno. Mas pronto, lá pelas treze e pico o dia fica (ainda) mais escuro e anoitece oficialmente. Digamos que a noite de Natal começa depois do almoço. Mais minuto menos minuto. Mais sobremesa menos sobremesa. Seria por essa altura, de estômago composto, que me faria ao caminho. Ou aos caminhos. Daria volta ao mundo, que remédio, começando de saco vazio e terminando, extenuado, no ponto de partida…de saco cheio. Fartinho da viagem, com certeza, mas satisfeito. Objetivo cumprido! Não haveria prendas para ninguém. Na manhã seguinte (dia de Natal, pois claro) seria o horror. Pais e filhos, sobrinhos e afilhados, irmãos e primos, avós e enteados (e alguns vizinhos mais chegados) iriam acordar, sem nada a que se agarrar. Por pouco tempo, já que uns minutos depois iriam agarrar-se uns aos outros. E conversariam que nem uns tolos, como se o mundo estivesse para acabar. Enfim, uma maravilha. Uma doce maravilha, à volta de uma aconchegante mesa com um tão deleitoso pequeno almoço que incluiria todas as iguarias feitas por todas as mães e todos os avós que preencheram ou preenchem as nossas vidas. Seria assim, fosse eu o Pai Natal. Mas descansem que não sou.
José António Duarte





