Hoje da Serra as palavras que correm são envolventes. Na sua base está o café, para uns é um líquido doce e quente para outros, para outros é… estava agora a tentar descrever o gosto do meu café e descobri que não existe forma de o adjectivar simples e clara. Eu estou no grupo dos “sem açúcar”, nunca bebi café com açúcar e bebo desde os catorze anos. Adoro café. Tenho que ir tratar de um para ver se consigo perceber isto. É amargo, sem dúvida, intenso, pois claro, redondo, sim… fica na boca, bem lá para trás, na ponta da língua logo deixa de se sentir, mas mais fundo continua lá, como memória, como sensação que, mesmo tendo o objecto causador deixado de existir, a memória do que fez persiste. Sou bebedora de café doméstica, não cultivo o hábito, que acho interessantíssimo, de sair de casa para “tomar café”, quando a minha velha máquina de café avariou fiquei de rastos quando vi o preço de uma nova. Acabei rendida às cápsulas, a que vinha a fugir há anos. A escolha envolveu saber o destino a dar às cápsulas depois de extraído o café. Hoje divirto-me quando vejo a cara do funcionário da Delta que me vê chegar com os meus sacos de cápsulas usadas…
São de José Luis Peixoto as palavras e de Rui Nabeiro as memórias que hoje correm da Serra.

José Luís Peixoto

Almoço de Domingo

“A paisagem acabou de nascer à minha frente. Sou a única testemunha deste instante. As formas e as cores assentam límpidas sobre os campos, são estreadas pelos meus olhos. Encho os pulmões deste oxigénio, também novo, fresco, mas sem a ofensa do gelo, já sem a madrugada. Os pássaros desenredam-se dos ramos das azinheiras em que passaram a noite, exploram agora todas as possibilidades da lonjura, não sabem para onde ir, querem estar em todos os lados ao mesmo tempo.”

“Estou de pé diante do Universo. Nas minhas costas, não sei se chegará a uma dúzia de metros, estão os cinco homens que me seguiram durante toda a noite. Sentados, descansam a carga e a sombra.(…) Receiam fantasmas de carabineros. (…) Essa é uma inquietação justificada, mas o meu tio Joaquim ensinou-me a fazer-lhe frente, a não permitir que preencha amanhã. Livre dessa cisma, valorizo a brisa, por exemplo, que me passa pelo rosto com o mesmo gesto com que passa pelo tronco rugoso de oliveiras, usando o milagre com que faz tremer as folhas dessas mesmas oliveiras, verdes de um lado prateadas do outro. O meu tio Joaquim ensinou-me os caminhos e, também, esta maneira de estar aqui.”

Almoço de Domingo encerra em si uma promessa. O almoço de domingo. O encontro. A partilha. Os filhos. Os netos. Os bisnetos. O correr da vida. O tempo. É tudo isso que acalenta a jornada do sr. Rui. Ele sabe melhor do que ninguém, porque o sente nas articulações e nos músculos que já não respondem, que o tanto que leva de estrada um dia chegará ao fim. Mas sabe que foi uma bela estrada a sua. A família sempre foi o núcleo da sua vida, primeiro a mãe e os irmãos, a promessa de pai, que cuidava do filho do doutor e a parca ceifou cedo demais, depois a sua Alice, a sua querida Alice. Nunca se cansa nem da mulher nem do nome, o mais bonito de todos os nomes. Com Alice fundou a sua mais sólida e segura empresa, aquela em que nunca houve investimento de risco, em que a segurança é senhora e rainha, a sua Família, tão sagrada como a que nesta época em que escrevo, a do Natal, se venera. Depois do casamento com a sua adorada Alice nasceu o “meu João Manuel” e depois a doce Helena, “a minha filha”. Depois vieram netos e bisnetos para colorir a vida e antecipar os Domingos com o espírito do menino a quem foi feita uma promessa (embora encerrado num corpo ignorante e teimoso…)

SINOPSE

José Luis Peixoto, tão alentejano como o Sr. Rui, é um escritor difícil. Na minha perspectiva de simples leitora, entendendo tanto de literatura como de física quântica, a escrita deste autor é uma tirana terrível. Começa por se deixar conduzir, parecendo que apenas o autor está ao leme, mas, a palavras tantas, percebemos que já não é o autor no comando, mas sim a escrita. As personagens ganham vida própria e autonomia, fazendo o que lhes dá na real gana e ao autor não resta mais do que dar-lhes voz. Até neste livro, que teria tudo para ser uma simples e alegre biografia autorizada, a escrita falou mais alto e o sr. Rui, personagem principal do romance que é a sua vida, vai contar-nos a sua história em devaneios mentais que surgem nos momentos mais estranhos, ou nem tanto, sem qualquer respeito por cronologias ou momentos. O desfecho das situações que a memória do Sr. Rui resolve trazer, encadeadas umas nas outras como peças de uma corrente de prata artesanal, em que cada elo é diferente do anterior, mas em encaixe perfeito, pode chegar logo ou… noutro assomo mais tardio. Em cada pensamento vertido estão tantos fragmentos de vida que dariam um romance, contudo a escrita soberba permite-nos alcançar esse romance mesmo sem que nenhum teclado de computador lhe tenha dado corpo físico. Vivemos as memórias vertidas, mas também as outras, as que ficam ali a pairar como se fossem éter num dia quente. Conhecemos o “meu Rui” menino que distribui o avio da mercearia que a mãe compõe numa cesta e ele faz chegar ao destino com brio e alegria. Conhecemos o Rui, homem ambicioso e trabalhador, capaz de transportar uma saca de café durante toda a noite por serranias e vales, guiar os homens que o seguem de forma cega, tal a sua confiança, e conseguir escapar aos carabineros terríveis, garantindo assim que aqueles saltos não vão engordar os meses desses carabineros, mas sim o magro pecúlio daqueles alentejanos de garra. Conhecemos o Sr. Rui, o Patrão justo que ousou sonhar, que viveu a Guerra Civil espanhola, porque ela atravessou fronteiras com as vestes mais diferenciadas que se possa imaginar, que sonhou a Delta e lhe deu o corpo que ainda hoje mantém. Continua a ser uma “simples empresa familiar”. Quem nos dá tanto conhecimento é o Sr. Rui de 89 anos, que ao sabor da memória nos deixa caminhar pelos trilhos da sua vida. Para mim uma vida muito digna, a vida de um grande homem, com uma visão extraordinária e que construiu um legado incrível.

Boa semana com livros e…. Café!!!!

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