Só vi uma. Isolada, lá num dos cantos do céu. Estava linda. Branquinha como a neve. Se calhar tinha mesmo neve. Não sei. Só perguntando a quem percebe do assunto. Cá de baixo não há como ter a certeza de nada e tudo parece bonito, olhando para cima. Mas era mesmo branquinha. Branquinha e assim muito redondinha. Não daquele redondo em círculo. Tinha muitos recortes, vista de onde a vi. Mas o efeito era um arredondado natural. Pouco geométrica, como quase tudo o que é natural. Mesmo linda. Só não a chamei porque não falo com nuvens. Não sou tolo e, mais do que isso, tenho vergonha e medo. Não das nuvens, mas de ser apanhado aos berros. Estão muito altas, mesmo as mais baixas, e eu não sou de bradejar. Nem bracejar, tão pouco. Muito terá de acontecer para me apanharem assim alterado ou altercado. Calei-me, quando a vi. Ou continuei calado, que estava sozinho. Observei-a, parado. E ela ali, naquele canto do céu. Azul. Só a minha nuvem branquinha se destacava. Sortuda. Soubesse ela desta inveja… Não do seu isolamento, mas da sua serena singularidade, que num ajuntamento que cobrisse o céu pouca atenção lhe daria. De noite ou de dia. Mas não. Hoje quase não havia nuvens.

José António Duarte

Acerca do evento pode ler mais AQUI

Artigo anteriorReforço para maiores de 50 vacinados com Janssen arranca hoje
Próximo artigoAs palavras que descem da Serra: Danças e Contradanças, de Joanne Harris

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui