Só vi uma. Isolada, lá num dos cantos do céu. Estava linda. Branquinha como a neve. Se calhar tinha mesmo neve. Não sei. Só perguntando a quem percebe do assunto. Cá de baixo não há como ter a certeza de nada e tudo parece bonito, olhando para cima. Mas era mesmo branquinha. Branquinha e assim muito redondinha. Não daquele redondo em círculo. Tinha muitos recortes, vista de onde a vi. Mas o efeito era um arredondado natural. Pouco geométrica, como quase tudo o que é natural. Mesmo linda. Só não a chamei porque não falo com nuvens. Não sou tolo e, mais do que isso, tenho vergonha e medo. Não das nuvens, mas de ser apanhado aos berros. Estão muito altas, mesmo as mais baixas, e eu não sou de bradejar. Nem bracejar, tão pouco. Muito terá de acontecer para me apanharem assim alterado ou altercado. Calei-me, quando a vi. Ou continuei calado, que estava sozinho. Observei-a, parado. E ela ali, naquele canto do céu. Azul. Só a minha nuvem branquinha se destacava. Sortuda. Soubesse ela desta inveja… Não do seu isolamento, mas da sua serena singularidade, que num ajuntamento que cobrisse o céu pouca atenção lhe daria. De noite ou de dia. Mas não. Hoje quase não havia nuvens.
José António Duarte
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