
Guilherme Cabral – jornal “A União”
A União Brasileira de Escritores – seção Paraíba (UBE -PB) lançou, em solenidade, na sede da Fundação Casa de José Américo (FCJA), localizada em João Pessoa, a segunda edição da antologia Imagens Literárias: A Realidade e o Sonho, que é publicada pela editora baiana Mondrongo. A versão 2021 do livro tem dois volumes, ambos custam R$ 50 na Livraria do Luiz, situada no centro da capital paraibana, e reúnem crônicas, contos, poemas e artigos escritos por 90 autores do Brasil e de mais quatro países: Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde. Durante o evento, com transmissão pelo perfil no Instagram da entidade (@ ubepbjp), haverá exibições de alguns depoimentos em vídeos pré-gravados de autores portugueses e africanos.
“A antologia é muito importante porque seu principal objetivo é divulgar os autores paraibanos no Brasil e em outros países e fazer com que os escritores estrangeiros também conheçam o que tem sido produzido na Paraíba, que nem sempre costuma ser disseminado”, afirmou o presidente da UBE-PB, Luiz Augusto Paiva.
Ele informou que a escritora Neide Medeiros sugeriu o título da antologia, cuja primeira edição foi lançada no ano passado. Para 2021, o presidente da UBE-PB disse que houve a seleção de 90 autores, dentre os 128 que apresentaram os seus textos. No caso da Paraíba, além do próprio Luiz Augusto Paiva, participam da obra escritores como Hildeberto Barbosa Filho, Tarcísio Pereira, William Costa, Milton Marques Júnior e Políbio Alves, totalizando 33 autores. Ainda estão representados na publicação os estados de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí, Bahia, Espírito Santo, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. De Portugal estão presentes nas páginas da coletânea oito escritores, enquanto de Angola, Cabo Verde e Moçambique são, cada qual, com dois autores.
Para o escritor português José António Ferreira Duarte, o projeto é importante por promover autores com vontade de mostrar os seus valores. O autor lusitano revelou de qual maneira produz os seus textos. “A inspiração é, quase sempre, o meu quotidiano. Sou muito atento a pormenores, comportamentos, trejeitos… Por isso, as minhas crônicas, um estilo que cultivo, falam muito disso mesmo. Mas gosto de escrever sobre tudo. Por absurdo, se me pedisse para escrever sobre o chão que estou a pisar agora, fá-lo-ia sem problema… e com prazer. Amo brincar com as palavras”, afirmou Duarte, que nasceu na aldeia da Cheira, concelho de Penacova, distrito de Coimbra.
Luiz Augusto Paiva também não descarta a possibilidade de lançar os dois volumes da antologia na Europa. “Nós tentamos isso com a edição anterior, principalmente em Portugal, mas a pandemia da covid-19 não possibilitou o evento. A situação lá está difícil, por causa da crise sanitária, mas, se o quadro melhorar, pode ser possível realizar esse lançamento”, persevera ele. “Essa antologia não pretende ser um tratado de literatura, mas um abraço fraterno, em dois volumes, de 90 escritores de três continentes que deixaram aqui, cada um deles, um pouquinho daquilo que têm de mais precioso: o amor pela escrita”, observou Paiva.
Uma das participantes é a autora austríaca Ludmila Saharovsky. “Fiquei admirada com a qualidade dos textos e da produção editorial. Essa é a décima quarta antologia que participo e na qual tenho duas crônicas que gosto muito, que são Mel de Violeta, que fala sobre uma colmeia de abelhas que se instalou no entre as duas folhas do armário da minha cozinha e entravam pelo buraco da fechadura e iam se alimentar nas violetas da jardineira colocada na janela da cozinha, e aí fantasiei; e a outra é Uma História de Amor, sobre um casal de turistas que conheci na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde comemoravam suas Bodas de Ouro”, informou a escritora, que atualmente está radicada no Estado de São Paulo.
“Essa antologia só foi possível graças a um convênio firmado com a Secretaria de Educação e Cultura do Município de João Pessoa”, apontou Luiz Augusto Paiva. A verba foi através de uma medida impositiva, feita pelo vereador Humberto Pontes, e sancionada pelo prefeito Cícero Lucena. Entre os nomes da comissão que selecionou os textos estão os de Francisca Vânia Nóbrega, José Edmilson Rodrigues, Ana Isabel de Souza Leão e Ludmila Saharovsky”, disse o presidente da UBE-PB, que participa da obra com duas crônicas, cujos títulos são O bule de chá e Malvadeza e Cicinho, que considera serem “textos simples e que falam do cotidiano”.
Ensaio na coletânea explora o lado poeta de Machado de Assis
Uma das integrantes da nova obra, a escritora Neide Medeiros participa da antologia Imagens Literárias: A Realidade e o Sonho com o ensaio Machado de Assis: poeta. A autora justificou a escolha do tema: “Machado de Assis é mais conhecido como romancista, contista e cronista, mas se esquece, um pouco, ainda é pouco divulgado que ele fez trabalhos poéticos e meu objetivo é mostrar essa sua faceta”, observou ela.
Medeiros informa que, em seu ensaio escrito para essa antologia, faz análise do poema Soneto Circular, que o Bruxo do Cosme Velho escreveu em agradecimento à pintura que recebeu de presente de amigos, que se cotizaram para comprá-la por saberem que ele gostava do quadro. “Machado de Assis talvez não tivesse condições de adquiri-la, mas admirava essa tela, pintada por Roberto Fontana e que se chama A Dama do Livro, quando ia a uma galeria no Rio de Janeiro. Atualmente essa tela está exposta na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), onde já cheguei a vê-la. Eu achei bonita essa história”, afirmou a autora.
O soneto analisado é o seguinte: A bela dama ruiva e descansada, / De olhos longos, macios e perdidos, / C’um dos dedos calçados e compridos / Marca a recente página fechada. // Cuidei que, assim pensando, assim colada / Da fina tela aos flóridos tecidos, / Totalmente calados os sentidos, / Nada diria, totalmente nada. // Mas, eis da
tela se despega e anda, / E diz-me: – “Horácio, Heitor Cibrão, Miranda, / C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo, // Mandam-me aqui para viver contigo.” / Ó bela dama, a ordens tais não fujo. / Que bons amigos são! Fica comigo.
A escritora e colunista do jornal A União também destacou a importância da antologia Imagens Literárias. “A obra permite o intercâmbio entre os autores e a divulgação de suas obras e está com mais participantes do que a edição anterior. E o que achei interessante foi a diferença vocabular, mesmo sendo o português, com os autores africanos de língua portuguesa. Mas isso não é um obstáculo, é até enriquecedor”, avaliou Medeiros.
Texto originalmente publicado na edição impressa de 30.11.2021 do jornal “A União” – João Pessoa – Paraíba – Brasil
