Não sei ao certo quando se passou esta aventura. Muito antes de ontem, com toda a
certeza. Quem sabe, num tempo encantador, onde vivem todos os personagens embalados pela inocência da nossa meninice. Incluindo Vitorino, portanto, moço atolambado e desmiolado, que habitava uma pequena aldeia perdida, não sei bem onde. Para lá do sol posto, muito provavelmente. Vitorino era um estroina doidivanas. Uma cabeça de alho chocho que ninguém levava a sério e que qualquer bicho careta se atrevia a achincalhar. Pobre Vitorino. As suas orelhas ardiam como tições, tão apoucado era. Nem a desmazelada e loira guedelha disfarçava o seu embaraço. Esgadanhando por atenção, falava de graça e pouco dizia. Cada palavra, duas bacoradas e três calinadas. Era a galhofa geral. Vivia como bobo em corte cruel, desconsiderado até pela pulguenta canzoada que deambulava pelas ruas do povoado. Sofria tratos de polé, o Vitorino. Dele faziam o que queriam, desde gato sapato à mais reles farinha. E mais picavam, por saberem que o herói da nossa história era uma pilha de nervos, acumulados por anos de humilhações. Ia aos arames com a mesma rapidez com que a mostarda lhe subia nariz acima. Um inocente, que caía em todas as esparrelas que os amigos da onça lhe iam atravessando nos estreitos caminhos que faziam a vida da aldeia. Até que chegou o dia. Elas não matam mas moem. E Vitorino sentia-se. Tanto, que se sentou a pensar na vida sobre a soleira da porta do seu pobre casebre. Pensou e voltou a pensar. Ali esteve, ensimesmado, a chocar uma mudança, refrescando as ideias com a ajuda de uma chuva molha tolos que caía desde o início da sua vida. Um par de horas depois, levantou-se como se tivesse fogo no rabo. Havia fumo branco a sair daquela cabeça de vento. Ia desopilar, o Vitorino! Que é como quem diz, ia pôr-se na alheta. E se bem decidiu, num instante o fez. Vendeu o que tinha. Tudo. Pelo preço da uva mijona, pois claro, tal foi a pressa que lhe deu. Uma pechincha para quem comprou. Vitorino estava agora sem eira nem beira. Por vontade própria. Um borra botas, com meia dúzia de tostões no bolso e uma vontade enorme de mudar de ares. Determinado, borrifou-se para ocas despedidas. Só a Alice (voltaremos a ela) lhe mereceu beijo fugido numa das bochechas, sem direito a explicações. Embalou a trouxa, meteu sebo nas canelas e…partiu. Para trás mija a burra, pensava, enquanto se fazia ao caminho. Por dentro, ia mais triste que a fria noite que escolheu para abalar. Chegado ao topo da colina, deu uma última mirada em direção à povoação que fumegava lá no fundo do vale e…embrenhou-se na floresta. Ouvira falar de um sábio que por ali fazia vida de eremita. Um vigário. Uma gordo homem, de medonhas ventas, que se dizia comer como um abade e que ali morava por andar de candeias às avessas com o seu bispo. Mas isso pouco dizia a Vitorino, que se queria aconselhar com gente mais ajuizada do que ele. Já quase deitava os bofes pela boca quando, depois de noite a caminhar, deu com o casebre do exilado reverendo junto a uma buliçosa ribeira. Vitorino espreitou por uma janela e avistou lume. Umas brasas na lareira da divisão maior denunciavam presença humana. Decidiu bater na entrada. Antes da primeira investida sobre as grossas tábuas de pinho, uma abantesma figura, vestida de negro e três palmos mais alta do que ele, abre-lhe a porta.
-Entra! – atirou, deixando Vitorino de bacalhau estendido e virando-lhe as costas. O jovem, encharcado que nem um pinto, acompanhou o vigário até aos dois mochos que se encontravam bem perto do calor do brasedo. Sentaram-se. Sem conversa de circunstância, o eremita logo fez saber que aguardava a sua visita:
– Já te esperava há algum tempo. Nem sei como tanto aguentaste, meu bom rapaz…A conversa continuou e Vitorino bebeu todas as palavras com a mesma satisfação com que se atirou a um naco de broa e presunto que o anfitrião lhe serviu. Uma hora depois, de papo cheio e bem mais quentinho, arrisca uma pergunta:
-Vigário, que devo eu fazer para ser mais respeitado na minha terra?
O vigário, depois de atirar cavaca para o lume, sentenciou:
-Duas coisas muito simples, Vitorino: léguas e livros.
Assim que ditou a receita, levantou-se e caminhou para a porta de saída, como que
sugerindo ao nosso jovem que tinha de se fazer à estrada. Com a pulga atrás da orelha por causa de tão enigmática resposta, o moço lá deu corda aos sapatos. Deu de frosques dali para fora. Andou horas, dias sem rumo. Uma barata tonta, tentando perceber que solução era aquela que não lembrava ao Diabo. Ainda por cima ditada por servidor de Deus. Teria caído em conto do vigário? Léguas e livros? À medida que pensava, andava. Enquanto andava, pensava. Correu Ceca e Meca, o imberbe. Palmilhou o mundo de cabo a rabo. Cruzou serras, atravessou rios, conheceu cidades e seus feitios. Os meses passaram, claro, e viraram anos. Léguas e livros, ia lembrando, sem perceber. Sem dar por ela, fez-se homem. Os horizontes abriram-se e o tempo trouxe-lhe juízo. Por vezes, ainda ficava com a telha ou com os azeites, que ninguém é de ferro. Já não emprenhava tanto de ouvido, embora, aqui e ali, lá pusesse a burra nas couves. Mas logo se recompunha, enquanto o diabo esfrega um olho. Estava diferente, sim, o Vitorino. Tinha até aprendido a ler, por sua conta. Na última cidade onde parou, antes de decidir, enfim, regressar a casa, já tinha alcunha de rato de biblioteca, tantas horas passava de volta do alfarrabista. Léguas e livros, remoeu uma última vez. Teria sido patranha do vigário, para o despachar, concluiu. Aprumou-se, então, em loja de fazendas, com os trocados que lhe sobraram da demanda. Tudo pagou. Puxou os cordões à bolsa, que não era homem de pregar calotes. Grande Vitorino! Tanto andou e mudou, que já não sabia de que terra era quando avistou, novamente, a sua aldeia natal. Estava feito num oito pela viajem. Mais para lá do que para cá. Não podia com uma gata pelo rabo, o desgraçado, mas lá fez das tripas coração para percorrer a última estrada. Estava em pulgas por dentro mas mostrava serenidade. A tal trazida pela idade. Foi essa que lhe valeu, quando avistou dois rufias brigões que conhecia de gingeira. Rufino e Durbalino. Dois sostras borracholas. Ambos de grão na asa, pois claro, que fizeram trinta por uma linha para o tirarem do sério. Martelaram-lhe os ouvidos até mais não. A nenhum deu cavaco. Bem lhe apeteceu ir às fuças aos dois de uma só vez, que tinha caparro para mais. Mereciam enxoval de porrada, os estafermos. Mas não. Mandou-os passear. Lamber sabão. Melhor. Ignorou-os, sem soltar um palavrão. Pasmados com o nervo do Vitorino e já de viola no saco, meteram prego a fundo, rumo à aldeia, para darem a boa-nova. Tinha voltado o Vitorino! E foi assim que, à entrada do lugar, o povo quase engoliu o filho da terra. Tinha passado muito tempo! Todos queriam um bocado do homem! A todos se escusou. Nem cartão lhes passou, fazendo ouvidos de mercador e vista grossa. Estava fino, o Vitorino! Como um alho. Lera algures que o silêncio também fala e…calou-se. A população estranhava. Olhavam-no de esguelha mas, coisa nova, com respeito!
-O gato comeu-lhe a língua? – perguntavam uns.
– Está diferente! Mudou desde que andou lá por onde o diabo perdeu as botas! – afirmavam outros.
E estavam cheios de razão. Já não era o pinto calçudo piolhoso, que todos zombavam. Era homem sereno. Sangue frio não lhe faltava! Quer dizer, só às vezes. Ainda lhe fervia, quando avistava a Alice (lembram-se?), que há muito o trazia pelo beiço e a quem antes piscava o olho sem sucesso. Mas isso já é história para segundas núpcias. Não?! Está bem, eu conto rapidamente. A moça, filha única de homem rico, bateu o pé ao pai. Queria o Vitorino, homem viajado e culto. Homem distinto de todos os labregos encalhados que a cercavam. E pronto. Bombo da festa é que o nosso rapaz nunca mais foi. Teve sim festa de arromba, quando casou. Dizem por lá que já só gasta o latim com quem lhe merece respeito. Só atira paleio fino, o Vitorino. De vez em quando, ainda se lembra do Vigário e do conselho dado para mudar de vida. Léguas e livros. A esta hora já terá entendido. Fim

José António Duarte

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