Esta coisa de escrever é engraçada. Quando assumi este compromisso com o PA, de enviar umas palavras Serra abaixo, interiorizei que teria de pensar com calma nessas palavras, que seriam ditadas pelo livro em questão com mais ou menos divagações. Pois… seriam, mas a verdade é que as divagações são mais do que o meu projecto inicial comportava. Hoje acontece outra vez. Escolhi cuidadosamente um titulo, de um autor muito pouco conhecido e de certeza sem nada de comercial mas com uma prosa brilhante mas… vai ficar para depois. Desta vez a culpa é dos canídeos! Bichos danados sempre a cirandar, hoje levei-as a dar um passeio para desentorpecerem as pernas e darem descanso aos quartos traseiros que estão sempre alapados e descobri que ainda há magia!!! Há já bastante tempo que desisti de levar máquina fotográfica nestes passeios, as demónias não dão hipótese a nenhuma captura de instantes, de luz ou cor ou ambas por isso deixo o artefacto em casa. Por vezes sinto-lhe a falta mas, dou graças aos engenheiros que dotaram estes instrumentos que usamos para quase tudo, de câmaras, sem ela a magia que encontrei hoje ficaria uns dias na minha cabeça e depois esfumava-se… Ainda só tínhamos dado uma corridita quando entrevejo uma fada, a sério, uma fada em conversa animada com um duendezinho, meio escondidos pelo tronco de um jovem pinheiro sentadinhos num tapete de musgo fofo. As bichas ficaram quietas, de orelhas levantadas (uma que as tem pequenas, a outra coitada não tem hipótese nenhuma de tão orelhuda que é…) e em posição de caçadoras inexperientes que são. Fiquei com a ideia que estavam a ouvir a conversa dos dois amigos. Eu aproveitei para sacar do instrumento de telefonar, clicar no ícone da lente e focar o melhor possível e…zás!! Fotografei!!! Quem me dera ter ficado quieta. O barulho do obturador assustou os dois habitantes do bosque que por qualquer razão obscura, por certo coisa de magia, não ficaram aprisionados naquele bocadinho de memória. Já tentei conversar com os canídeos para perceber se foi real ou não mas elas não estão para me aturar (já alaparam os reais traseiros outra vez!) mas foi real, sem duvida que os bosques mágicos ainda existem e hoje tive a sorte de encontrar um que me fez pensar em A Menina que Roubava Morangos. E é assim que algo pensado com cuidado é destronado por um improviso, tão improvisado que só um momento especial poderia engendrar.
Já antes aqui deixei uma sugestão de Joanne Harris, e hoje biso. Nunca li nada que a posicionasse dentro da corrente do realismo mágico, mas é isso que sinto com algumas das suas obras, sobretudo as que envolvem Vivianne Rocher, uma chocolateira especial que tem o dom de adivinhar o chocolate preferido de cada cliente e de ouvir a voz oculta do vento e o seu chamamento. Ao ler apoderam-se de nós, leitores, todos os sentimentos das personagens. O suspense, criado desde a primeira linha de texto, é mantido num crescendo que dá vontade de ir ver o final. Vivianne Rocher dá corpo e alma a um primeiro Romace, Chocolate, posteriormente adaptado ao cinema (excelente filme com Juliette Binoche- Vivianne- e Johny Depp- Roux). Um dia Vivianne chega a Lansquenet-sous-Tannes, durante a quaresma. Na bagagem leva utensílios de cozinha, muitos sonhos, alguns pesadelos, um conhecimento imenso sobre chocolate e a magia que encerra, a capacidade de ouvir o chamamento do vento e de saber os segredos que transporta, e uma filha pequena. Os anos passam, o Vento obriga a andanças e mudanças, mas o apelo de Lansquenet é impossível de ignorar e Viviane regressa A Menina que Roubava Morangos Hoje deixo-vos com palavras de Joanne Harris em A Menina que Roubava Morangos.
Joanne Harris

“A coisa toda dá a sensação de ser uma partida. Pregada a Roux, a Mme. Montour e acima de tudo a mim, mon père. “
“Eu abanei a cabeça. Ainda estava a sentir-me triste. E não queria chocolate quente. Queria ficar só, no meu bosque, onde ninguém me podia ver ou ouvir. Sabia que a maman estava a tentar ajudar, mas, de alguma maneira, isso fazia-me sentir ainda pior. (…)por vezes penso que a maman ainda acredita que o chocolate pode resolver qualquer problema.”
A Menina que Roubava Morangos

Sinopse
Rosette é a filha de Outono de Vivianne e Roux. Vivianne faz chocolates e gere a sua pequena loja. Roux é um espírito indomável, vive no rio, na sua barcaça e nunca conseguiu sentir terra firme debaixo dos pés durante muitas horas. Rosette é uma criança diferente, não fala, excepto para dizer verdades que por o serem tanto podem ser inconvenientes, tem por isso poucos amigos e nenhum da sua idade. Narcise é dono de muito, mas adora a sua loja de flores que abre religiosamente todos os dias. Entre as suas posses está um belo bosque onde os morangueiros bravos produzem morangos em abundância e Rosette colhe-os sem pedir autorização. Claro que narcise sabe, mas desempenha o seu papel de dono ofendido com toda a pompa e circunstância. A morte de Narcise vai deixar um foco de clivagem na aldeia por ter deixado em testamento o bosque dos morangos a Rosette. A filha de Narcise, que também tem um filho “especial”, mas que não valoriza da mesma forma que Vivianne valoriza Rosette, fica possuída porque a única coisa que vê na vida é dinheiro. Nunca esteve para o pai, sempre teve outros valores, mas não quer aceitar a decisão última do pai por pensar que o bosque encerra um tesouro monetário, que a ela a magia e um punhado de morangos nada interessam… na realidade o bosque encerra segredos…. Narcise, ao partir, deixou uma confissão terrível que deixa o pobre Père Reinnaud numa posição difícil de gerir.
Cada personagem carrega mais segredos do que os que quereria, o Vento semeia a confusão, a magia do chocolate confronta outras magias tão ou mais poderosas que a sua, no ar fica sempre algo que deveria ter sido dito ou feito.
Boa semana com livros!!
Ps: Depois disto vou fazer um chocolate quente…












