Como bem sabem os Leitores do Penacova Actual, tenho escrito sobre a questão da Saúde em Portugal em geral, dos seus Profissionais e, em determinados contextos, sobre a temática da falta de rumo, de estratégia e, até, dos conhecimentos evidenciados nesta Área (ou na falta deles) que é vital para a nossa Sociedade.

Principalmente, reitero, para os mais desprotegidos: velhos, deficientes, doentes, desempregados.

Enquanto consultor liderei equipas de reestruturação de sectores específicos da Saúde; enquanto advogado tenho seguido processos relacionados com a temática e os seus desaforos.

E enquanto cidadão andei uma vida inteira a pagar impostos, no pressuposto de que na hora exacta, lá estaria o SNS a dar-me a sua resposta…

O certo é que eu -por mera felicidade- ainda não precisei do SNS;

O certo é que a generalidade da população portuguesa não tem mais nada senão o SNS;

O certo é que ele está novamente a falhar;

O certo é que toda uma classe profissional -a que se irão seguir outras- se encontram em debandada.

Ora,

Se num determinado momento eu pedi a todos para que, cada um como podia, ajudar o SNS a não se afundar completamente, preservando, assim, a necessária dedicação e até a necessária fidedignidade dos Serviços -ambas directamente ligadas à confiança do utente- agora estou estupefacto perante a incapacidade e a carência que se revela no post pandemia!

  1. Ficaram para trás milhões de casos identificados de utentes doentes;
  2. Morreram milhares de pessoas que não foram acompanhadas;
  3. Não se conseguiu recuperar -antes se agravaram- as famosas listas de espera, que mais não são do que listas da falta de vergonha de uma democracia em agonia;
  4. Os profissionais estão exaustos e essa realidade é transversal: médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares;
  5. O orçamento nunca dá a resposta necessária e isso acontece há tantos anos que agora se transforma num monstro imenso;
  6. Escasseiam gestores competentes, ou são-lhe dedicados os amigos dos amigos dos amigos…

!… Dos últimos dados disponíveis verifica-se que em cada dia saem do SNS dois médicos …!

E isto é absolutamente liquidador de qualquer serviço; de qualquer organização; de qualquer entidade.

Perguntemos-lhes porquê -o que já fiz- e ouviremos a resposta:

– não são tratados com dignidade pela sua entidade patronal;

– não recebem retribuições semelhantes às dos seus colegas da saúde privada, ou de outras classes profissionais como, por exemplo, os Deputados, os Juizes e essa classe brilhante dos membros dos gabinetes;

– não têm as condições de trabalho fiscalizadas por nenhum organismo do Estado, o que mais parece digno do mundo a seguir ao terceiro;

– não têm condições para preservar a segurança do ato médico em si, por mais simples que seja;

– são aprisionados nos serviços sem limite de horário, sem consciência das maleitas da exaustão;

– não recebem os valores que lhes prometeram para os calar;

– e não têm condições objectivas para dar a devida atenção às suas Famílias: pais, irmãos, cônjuges…e filhos.

Ou seja, resumindo: são portugueses de estatuto social elevado, mas de terceira classe, objectivamente.

E estão a dar o Grito do Ipiranga!

Claro está que tudo isto -e as suas consequências muito, muito nefastas- interessa muito pouco a quem os tem andado a tratar mal, aos que fazem juras de apego ao SNS, sem nada resolverem, aos que sabem que eles, ainda que todos juntos, não interessam substancialmente para os jogos da política.

… O problema é que ainda não se fazem omeletes sem ovos!… e estes ovos são ovos de ouro para qualquer tipo de organização da Área da Saúde, a que auguro um desastre iminente de dimensões nunca vistas!

Preparemo-nos!

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5 COMENTÁRIOS

  1. Como sempre um excelente comentário e na hora certa para que quem de direito reflita , se é que querem, o que de todo não parece que vá acontecer.

  2. Caro amigo Dr.
    Na casa onde não há pão todos ralham e nenhum tem razão!
    Infelizmente tenho que lhe dar razão!
    Há imensos bons profissionais! Há recursos que, se bem geridos, podiam propiciar uma melhor resposta, mas os vícios do sistema torpedeiam os bem intencionados. Se não pugnarmos por mudar o que não presta não chegaremos longe nem em tempo oportuno!
    Só se vêem esquemas para enganar o Estado, que somos nós.
    Com mais formação ética,, cultural e profissional talvez seja possível melhorar um pouco, disponibilizar mais recursos e conseguir dar jeito nas mentalidades e estabelecer mais equidade.
    Apoio a sua luta pela dignidade!

  3. Como diz o Luiz Amante – e muito bem! – o SNS está a tornar-se num caso cujo desfecho aponta para um muito lamentável desastre.

    Sem dúvida que, no desenrolar do estado de pandemia, o SNS teve que dar resposta a situações muito complicadas, e é da mais elementar justiça dizer que, pelo menos a nível hospitalar, o pessoal médico, o de enfermagem, o técnico e o auxiliar tiveram um desempenho que, globalmente, só se pode qualificar como muito positivo. E isso só terá sido conseguido graças á capacidade técnica e sentido de dedicação e empenho pessoal de cada um deles.

    Tudo isto sem esquecer a bem sucedida campanha que nos levou a níveis de vacinação dos mais altos do mundo.

    Ponto assente!

    Porém, este desempenho muito positivo resultou duma afectação extraordinária de recursos técnicos e humanos que originou fosse relegado para segundo plano, quando não manifestamente ignorado, todo um conjunto de doenças e de casos clínicos originados por outras patologias, também elas potencialmente muito letais como, por exemplo, os casos dos foros cardíaco e oncológico que, infelizmente, muito abundam no nosso país.

    Por outro lado, as estatísticas de morte e morbilidade que são divulgadas, todas elas focadas exclusivamente no covid e suas variantes, deram, e continuam a dar, uma visão muito distorcida da realidade.

    Pior ainda, desde há muito que o SNS tem vindo a crescer, a inchar, e burocratizou-se em excesso, sendo aí reside muita da sua actual ineficiência, sobretudo a nível administrativo, com reflexos negativos a nível da operacionalidade.

    Qualquer cidadão verá a teia kafkiana em que arrisca a meter-se quando, por exemplo, muda de residência e tem que mudar de posto de saúde e de médico de família, se o houver disponível na sua nova área de residência… E em boa verdade, consultas pelo telefone, valem o que valem… Isto, já sem falar na total inadequação tecnológica dos meios de comunicação que são utilizados para contactar os utentes.

    Se a isto se juntar o grau de insatisfação que sentem os profissionais do SNS – médicos, enfermeiros e técnicos – pelas condições de trabalho e de remuneração, dá para entender que se aproxima uma “tempestade perfeita” que convém controlar enquanto é tempo.

    Para isso, não basta dinheiro. É preciso liderança clara e eficiência decisória. E isto não significa fazer-se a apologia de homens ou mulheres providenciais, em que não acredito, de todo.

    Talvez até estejamos todos com uma percepção muito acentuada de desgraça, mas o facto é que o SNS é demasiado importante na nossa vida colectiva para que possamos sequer permitir que existam condições que criem este alarme.

    Mas a verdade é que paira no ar um intenso cheiro a crise na área da saúde…

  4. Para nós que vivemos no Brasil, é difícil
    aceitarmos que Portugal com tantas conquistas
    nos últimos anos tornando-se agora o país mais atrativo do mundo no setor de turismo, possa estar vivendo tamanha desintegração no setor básico da saúde pública. Apesar disso acreditamos na capacidade de reação e reconstrução da nossa nação irmã. Alertas mobilizadoras feitas pelo Luís mesmo num cenário decadente são inspiradoras das mudanças
    que se fazem necessárias.

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