Terá acontecido em Paradela da Cortiça, num dia de Verão, há cerca de sessenta e cinco anos, na festa em honra de S. Sebastião, o padroeiro da terra.
Na hora de organizar a procissão começava-se pelas imagens mais pequenas e mais leves até chegar à maior e mais pesada (que era a imagem do padroeiro). Finalmente, sai o andor de S. Sebastião, como de costume enfeitado com flores vermelhas e com facha cruzada do ombro à cintura.
Para sair da igreja é preciso descer uns três degraus até atingir o nível da calçada. Implica, pois, que os quatro mordomos que transportam o andor aos ombros se coordenem muito bem no momento de transpor o declive. Os de trás terão de baixar, de modo a manter a posição horizontal e evitar excessiva inclinação.
Ora, foi aqui que algo correu mal. O andor tomba à direita e o “santo” dá com a cabeça na cantaria da porta! Uma ranhura com alguns centímetros se estende da cabeça até à cara.
Não fosse a azáfama para abrir o pálio cujos paus teimavam em se enredar uns nos outros; não fosse a preocupação para que os doze andores seguissem bem alinhados e não fossem os acordes da banda de música, mais gente teria dado conta daquele acidente.
Como, no fim de contas, nada caiu e para não criar burburinho o juiz da irmandade mandou seguir a procissão. No final, depois de todos se encaminharem para o almoço festivo, a comissão reuniu em breves minutos e decidiu, caso houvesse saldo positivo, mandar arranjar o estrago. Mas a verba não chegou e houve que organizar uma comissão de angariação de fundos. Pedido o orçamento em Coimbra, lá se conseguiu o conserto ainda antes do dia de S. Sebastião, assinalado a 20 de Janeiro.
Conta-se que quando a comissão percorria as casas da aldeia um determinado senhor terá questionado: – Dinheiro para quê? O Santo não come nem bebe, não compra roupa! Eu por mim não dou nada! E não houve argumentos que o convencessem…
Aconteceu que nos primeiros dias de Janeiro a tal pessoa adoeceu gravemente, caindo de cama, não falando, não comendo pela sua própria mão e não reconhecendo ninguém.
Chega o 20 de Janeiro, dia de S. Sebastião, e o homem continuava na mesma. Mas no dia seguinte sai finalmente daquele estado e a primeira coisa que pronunciou foi, para espanto de todos, perguntar se já tinha sido o dia de São Sebastião!
Teve sorte! Olha se S. Sebastião, além de milagreiro, não fosse clemente e compassivo…
Nota: esta história foi-nos contada pelo Sr. José Eduardo Almeida Correia, que também nos enviou fotografias com a imagem de S. Sebastião que se venera em Paradela da Cortiça.













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