Não gosto de espirros. De espirrar, então, muito menos. E não devo estar sozinho. Somos muitos, com esta vulnerabilidade. Ficamos tão indefesos quando espirramos, que não há protocolo ou boas maneiras que nos salvem. Viramos bichos descontrolados. Criaturas extravagantes, fazendo das mais tristes figuras para que o ser humano está habilitado. E eu devo ter excesso de habilitações na matéria. Faço cada uma…. A minha primorosa educação e lapidada elegância levam-me a espirrar para dentro, obrigando-me, consequentemente, a uma dolorosa e exuberante contração abdominal. Um espetáculo muito pouco edificante para o acidental apreciador. Mas o pior mesmo é quando vem um daqueles (felizmente pouco frequentes) surtos que a rinossinusite comporta. Sem herdade, o que é pena. Preferiria essa, no estuário do Sado. Mas não. Falo mesmo da inflamação. Veio com a idade. É problema recente, de homem já feito e maduro. A tortura começa sempre com falsos alarmes. Muitos. Uma espécie de vem que não vem. Começo por fazer uma careta muito feia (diz quem vê), como se fosse libertar-me de todas as impurezas que não tenho e… nada. Volto à posição de descanso inicial. Mas por pouco tempo, já que o processo repete-se e pode prolongar-se por uns bons doze minutos e quarenta e três segundos, contados assim por alto, que nestas alturas a medição do tempo não é prioritária. Uma eternidade para o protagonista, sendo que o importante é sair por cima, sobretudo sem consequências trágicas para a nossa vida social. Precisamente. Trata-se de surto que vira susto, enquanto o diabo esfrega um olho. Ou enquanto coça o nariz. Fica melhor, aqui. Mas como dizia, quando é testemunhável (o surto/susto), chega a ser risível. Os ‘sons mudos’ e a boca aberta a cada falsa investida proporcionam matéria que poderia ser usada por gente mal intencionada. Até que começa finalmente a chover. Começo a espirrar, portanto. Os primeiros são mais secos e até fáceis de gerir abdominalmente. Mas, algum tempo depois, já tenho o lenço definitivamente comprometido e os olhos vermelhos e lacrimejantes. O ‘picadoiro’ nas vias nasais está, por essa altura, num patamar (quase) tão intenso quanto o provocado por um punhado de milho de pipocas lançado em tacho de azeite a ferver. Com o lume no máximo, obviamente. No final do processo, o combalimento e o estrago são tão grandes que justificam umas boas horas de baixa. Pena não haver essa modalidade. Pelos menos dela não tenho conhecimento. Mas fica a sugestão para uma futura reforma do Serviço Nacional de Saúde. Vamos lá tratar das nossas alergias com a dignidade que merecem. Mas não vou desenvolver, que não gosto de escrever sobre assuntos muito aborrecidos. Aliás, só me lembrei disto tudo por que deixei crescer os pelos do nariz. Cortava-os por razões estéticas. Pura vaidade, se preferirem. Mas acontece que aprendi (com sofrimento) que ficava menos protegido do assalto das partículas finas. Assim, estou mais grosso mas espirro menos. Muito menos.

José António Duarte

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