Qualquer natural de Penacova ouviu, em algum momento da sua vida, uma referência a grandes escritores e poetas relacionados com a sua terra. São bem conhecidas as ligações de Vitorino Nemésio a Penacova. São bem conhecidas as ligações de Augusto de Castro a Penacova. Se alargarmos o âmbito cultural também podemos incluir a figura de António José de Almeida, bem conhecido por todos os nacionais como um dos primeiros Presidentes da República, mas que, no seu tempo, também era conhecido como um homem com o dom da palavra. Na segunda metade do séc. XIX e no início do séc. XX não havia político que não tivesse produção literária publicada e que não pretendesse mostra-se como um hábil criador literário. Tal veleidade não era uma reserva exclusiva de políticos portugueses, também noutras paragens a mesma tendência se verificava, se bem que, talvez, menos vincada que em Portugal.
Vitorino Nemésio não era oriundo desta região. Nasceu nos Açores, mas foi para Coimbra estudar na Universidade e depois obteve o lugar de professor, casou e ficou a residir em Coimbra (Cruz de Celas, Quinta das Albergarias). No entanto, para usufruir de paz e sossego, buscava refúgio em locais de mais profunda Natureza. Como que lutando contra a sua condição de ilhéu, em vez de se aproximar da costa embrenhava-se nas montanhas e florestas. Encontrou um desses lugares no concelho de Penacova, em Portela de Oliveira. O território de Penacova estava cheio de montes e vales recônditos, muita floresta autóctone e não se viam essas miseráveis espécies invasoras que agora desfiguram e poluem a paisagem. A imaginação faz-nos pensar que tal como João José Cochofel se refugiava no Senhor da Serra, Vitorino Nemésio refugiava-se em Portela de Oliveira, no famoso moinho de Nemésio (era, aliás, proprietário de vários moinhos).
O seu apreço pelas paisagens de Penacova era tal que chamou a si a tarefa de redigir o capítulo referente a Penacova do Guia de Portugal coordenado por Raul Proença. Nesse texto, Vitorino traça um elogio aos miradouros e às paisagens de Penacova. É ele que aponta, nesse mesmo texto, a passagem por Penacova de Rodrigues Lobo, o poeta do séc. XVII, numa altura em que já caíra em desgraça junto do seu mecenas e dá testemunho disso no poema Primavera (1601). É por causa de Nemésio que outros artistas literatos foram atraídos a Penacova, em visita, em passeio, em convívio. Por exemplo, David Mourão Ferreira e Natália Correia estiveram em Penacova, em 1980, para participarem numa homenagem a Vitorino Nemésio na mesma altura em que foi feita a doação do moinho de Nemésio à Câmara Municipal.
Augusto Simões de Castro deixou uma marca histórica em Penacova no chamado Penedo do Castro. Sem dúvida um dos melhores pontos panorâmicos de Penacova, já que permite avistar uma boa porção do vale do Mondego, onde pontifica a praia do Reconquinho, nota-se o desenho bem delineado da penha onde se alcandorou o castelo e, mais adiante, a garganta aberta e esculpida pela água do rio onde está a Livraria do Mondego. Também se poderia ver a capela de Montalto se não estivesse completamente afogada num mar revolto de eucaliptos que ultrapassam a cota do cume em que a capela assenta. Simões de Castro foi, porventura, o descobridor da vista panorâmica que se oferece a partir daquele promontório e o primeiro a divulgá-la, levando lá amigos e convidados para fruírem de uma vista única, ao ponto de cristalizar, por associação, a ideia que aquele era o penedo de Castro. Nascido em Coimbra, Augusto de Castro conhecia muito bem a região e em 1867 publicou um livro publicista Guia Histórico do Viajante de Coimbra e arredores.
António José de Almeida é provavelmente a figura histórica mais relevante do Concelho de Penacova. Já todos passaram pelo busto deste personagem no largo do município, o antigo terreiro. Foi o sexto Presidente da República Portuguesa, entre 1919 e 1923, o primeiro a conseguir completar os quatro anos de mandato presidencial. Fundou revistas e jornais por onde espalhou artigos defensores da causa republicana, que lhe valeram a prisão; e foi um orador reconhecido, tanto nos debates parlamentares como em situações especiais – foi o orador principal no funeral de José Falcão, em Coimbra.
Estas três figuras são as que mantiveram uma relação mais consistente, continuada, com Penacova, mas há outras figuras que tiveram uma relação mais breve, episódica, uma mera passagem por Penacova. O que não deixa de ser interessante. Penacova conheceu, por exemplo, a passagem do nosso Prémio Nobel da Literatura, José Saramago. Muitas localidades portuguesas tiveram o privilégio da visita de José Saramago em 1980, enquanto este esteve a viajar para conceber o livro Viagem em Portugal, que viria a ser publicado pelo Círculo de Leitores logo em Março do ano seguinte. Ora, foi o caso de Penacova. Podem os penacovenses gabar-se que José Saramago pausou na sua terra para o almoço, mas que só em parte o satisfez, pois, diz ele, “a comida é excelente”, mas era inverno e o restaurante não tinha aquecimento, de modo que “bastou-lhe viajar entre a cozinha e a mesa para chegar fria”. Infelizmente o viajante não levava o melhor humor, os contratempos ocorridos em Penacova não ajudaram, por isso recorda aborrecido o tempo que ficou na pérgola a “olhar cá de cima o vale do Mondego, contemplar os montes à procura de qualquer aspecto que os distinga dos cem outros vistos antes e justifique tão longo admirar”.
Faz pouco tempo que o meu amigo David Almeida, provavelmente a maior autoridade viva sobre o Concelho de Penacova, descobriu uma ligação de Penacova ao poeta António Feliciano de Castilho. Andava ele a tentar descobrir quem inventou o nome Livraria do Mondego quando tropeçou no nome deste poeta. Feliciano de Castilho terá passado por Penacova numa barca que descia o rio Mondego, deslocando-se de Santa Comba Dão para Coimbra. Feliciano de Castilho descreve, nessa descida de barca serrana, aquele estreitamento quartzítico que estrangula o Mondego e dá-lhe o nome Livraria do Mondego: é o mais antigo registo escrito daquele nome. Tal expressão foi registada na “Conversação preambular” à obra de Tomás Ribeiro, o longo poema D. Jaime, que daria tanto celeuma em Coimbra. Segundo o poeta ultrarromântico a expressão Livraria do Mondego teria sido usada pelo barqueiro, mas desconfiamos, pois, tal como Vitorino Nemésio já notara, é expressão demasiado educada para ser de batismo popular. Talvez a razão pela qual a formação rochosa tem o nome que tem se deva ao sentido poético de Feliciano de Castilho: “penedia como que arrumada […] como volumes em biblioteca”.
Agora proponho-me acrescentar a estes nomes famosos que criaram um vínculo com Penacova, outros dois que em meados do séc. XX foram figuras de relevo da cultura em Portugal. Descobri que passaram férias em Penacova não um, mas dois Prado Coelho: o Prado Coelho pai, ou seja, Jacinto de Prado Coelho; e o seu filho, Eduardo Prado Coelho. Ambos figuras centrais da cultura e da literatura portuguesas. Jacinto de Prado Coelho foi um destacado investigador e professor universitário em Lisboa, autor de inúmeras obras centrais (nomeadamente, o famoso Dicionário de Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira), emprestando hoje o nome a um relevante prémio literário. Eduardo Prado Coelho era filho do primeiro e seguiu as pisadas do pai, tornando-se um intelectual influente nos anos 90, nomeadamente quando foi Comissário português para Literatura e Teatro na Europália (1991).
Descobri há pouco tempo, ao reler o livro Tudo o Que Não Escrevi, uma espécie de diário publicado de Eduardo Prado Coelho, uma memória da adolescência que o autor inscreveu nesse diário em Janeiro de 1992 e que revela terem estado os dois, pai e filho, em Penacova. Escreve Eduardo Prado Coelho o seguinte na página 254: «Um dia, em Penacova, quando lá passávamos alguns dias de férias, por entre passeios nas matas, descidas ao rio, tardes de leitura na pérgola, noites entregues à inocência de alguns jogos perversos, e uma inevitável excursão a Lorvão, um dia, sabe-se lá porquê, o meu pai acordou com um sentimento inesperado de euforia. Eu devia ter uns quinze ou dezasseis anos, ele pouco mais de quarenta (contabilidade impensável: era mais novo do que hoje eu sou). De manhã, como se tornara habitual, fui ao quarto dos meus pais para descermos juntos a tomar o pequeno-almoço, e a mãe ria e dizia baixinho: “o teu pai está maluco” (…)».
Se Eduardo Prado Coelho nasceu em 1944, em 1960 teria os tais 16 anos. Desde o princípio do século que Penacova gozava da fama de local de bons ares (o Preventório existia desde os anos 30), local de beleza paisagística, era um destino turístico que se articulava com a proximidade de Coimbra, Lorvão e Bussaco. Existiram, por isso, vários hotéis em Penacova. Nos anos 60 estariam ativas a Pensão Avenida, a Pensão Viseu e a Casa de Repouso. A própria pérgola de Raul Lino foi erguida em 1918 em prol do fomento turístico de Penacova – note-se que já cumpriu mais de um século de existência. Agora sabemos que os dois Prado Coelho passaram alguns dias de férias, talvez uma semana, num destes hotéis e foram felizes. Nos anos 60, Penacova ofereceu dias felizes de veraneio a turistas famosos.
O que me causou mais impacto foi imaginar Eduardo Prado Coelho sentado na pérgola de Raul Lino, a ler. Hoje passamos ali e não encontramos ninguém na serenidade da leitura. Mas aquele espaço já foi um lugar de deleite para um grande leitor português. Mais forte é imaginá-los, os dois, a ler, em Penacova: “tardes de leitura na pérgola”. Pareceu-me uma ideia forte: ler em Penacova; a pérgola como local de leitura.
Pedro Miguel Gon
