Hoje, neste fim de tarde tão bonito, em que o sol de outono está no seu melhor, vão sair da Serra palavras de Afonso Reis Cabral. O título, O Meu Irmão, lembra-me o meu, que foi uma das grandes dádivas com que a vida me presenteou. Com este romance o autor ganhou o prémio Leya em 2014. É um livro duro, quase diria cruel. Aborda as questões da deficiência numa perspetiva social e familiar sem véus, de forma crua. A imposição de formas de vida, o peso que representa a deficiência, as tentativas de fuga que cada um empreende para se descartar do fardo, tudo isto fica plasmado nestas páginas e depois de passarem a barreira dos olhos do leitor ficam a martelar de forma insidiosa na mente. A obra está muito bem conseguida, as descrições espaciais são tão precisas que nos sentimos transportados para as penedias de Arouca; a visita à casa do velho, imediatamente antes de Tojal, que já morreu, e por isso já não está à janela, ainda paira no meu nariz. Também as incursões alma adentro são vividas e sentidas. É impossível não sentir o remorso que corrói a alma do irmão de Miguel por se ter ausentado da vida, como se ela não fosse a sua.
Afonso Reis Cabral

O Meu Irmão

“Esta zona de Portugal fez-se em xisto e até o barulho dos passos fere. É duro viver aqui agarrado ao pedaço mais pequeno de terra a ver se aquilo dá alguma coisa para comer. E as pessoas envolvem-se, dão tudo de si ao campo através da enxada.”
“O senhor Aníbal é daquelas pessoas pim, pam, pum. Ouve pim ,faz pum. Ouve pum faz pam e por aí fora. Não é pois muito inteligente. As suas frases preferidas são “Então vá” e “Tenho muito que fazer”, mas de resto nunca vai nem nunca faz.”
“Eu fico de pé. O Miguel pega numa cadeira e senta-se ao lado da senhora Olinda de perna cruzada. Os modos boçais dela, muito ao contrário do que está habituado, sempre o atraíram.
Vê nela uma figura maternal às avessas: sente uma aversão àqueles braços tão diferentes dos da nossa mãe, àquele cabelo nada louro, àquela cara que não tem beleza, só que apesar disso gosta dela e das memórias que dela tem.”
Sinopse
Quis o destino que Miguel nascesse. Nasceu diferente. Nasceu com trissomia 21. E todas as dificuldades associadas. O irmão, um ano mais novo, queria ter um Irmão, não conseguiu aceitar a imposição do destino, e lutou para ter o irmão, quando não conseguiu desistiu e afastou-se. Afastou-se tanto que quase esqueceu o peso brutal que durante anos repousou sobre os ombros dos pais. Com a morte destes era preciso decidir o destino de Miguel. A família ficou aliviada quando o irmão mais novo, professor universitário, dono de uma misantropia assustadora, chama a si a responsabilidade de cuidar do irmão. Vão regressar ao
Tojal, à casa da aldeia onde a felicidade dos verões nunca foi bem real. A viagem serve de ponto de partida para uma outra viagem interior que permite visitar aqueles recantos da alma que era melhor ter bem fechados. Miguel merecia mais e melhor mas a vida reservou-lhe pouco, só mesmo aquilo que lhe deixavam, quase como se fossem uns restos de vida, sem direito a felicidade ou alegria.
Boa semana com livros!!!
Anabela Bragança











