Como está na altura de lembrá-los, também eu me lembrei de certa vez que, se bem me lembro, me vi obrigado a lembrar-me de todos eles. Sim, acho que os invoquei todos, um por um. A história é fácil de contar e começa com quatro rolamentos de roda que o meu pai me trouxe lá do seu local de trabalho. Eu já andava a namorá-los há uns meses, impaciente, pois queria muito acabar o meu carro de madeira para me fazer ao alcatrão. O trânsito (quase residual) das nossas estradas da aldeia fazia com que fossem nossas também. Eram espaços de recreio por excelência, onde o perigo (até certo ponto) estava controlado. Assim, de rolamentos nas mãos e com os olhos esbugalhados, lá fui a correr encaixá-los nas extremidades dos dois eixos do carro. Um senhor carro, que há muito esperava o retoque final. Ainda o experimentei, nesse mesmo final de tarde (já lusco-fusco) junto à porta, mas a prova dos nove estava reservada para a manhã seguinte, na descida entre o Penedo do Castro e o Penedo Raso. Um trajeto perigoso mas que era feito apenas quando já tínhamos algumas milhas de alcatrão, devido ao acentuado declive. Estávamos nas férias de verão e, depois de ir bem cedinho à serra (duas vezes) buscar lenha para o forno, lá obtive autorização para rumar ao meu eleito ponto de partida. Arrastando o carro serra acima, subi o Bairro da Portela (aldeia da Cheira), repousei uns minutos debaixo de uma carregada tangerineira nos Cambos e cheguei, finalmente, ao alcatrão. O Penedo do Castro, ali ao lado, iria testemunhar a vertiginosa viagem (cerca de meio quilómetro) até ao Penedo Raso. Antes de ‘soltar as amarras’, ainda fiz dois ou três piões de descompressão com o carro na área de partida. Até que, já com a confiança em alta, lá comecei a rolar. Devagar. Bem devagar, no início, travando com as solas de sapato que preguei no eixo dianteiro e nas quais carregava ainda com força. O barulho dos rolamentos no asfalto era tão estridente quanto estimulante, obrigando-me a aliviar gradualmente o freio. Quando dei por ela, estava lançado a não sei quantos à hora por ali abaixo. Só me lembro de que era velocidade a mais para a estabilidade que o carro, o piso, o declive e as curvas permitiam. Exagerei no entusiasmo, se quiserem. A segunda curva mais complicada do percurso já só consegui fazê-la com a perda total do travão da esquerda, que ficou pelo caminho. Faltavam ainda os últimos metros antes da última e perigosa curva em cotovelo à direita, junto ao cemitério da Eirinha. E foi aí que terei sido crente pela última vez, com onze ou doze anos. Pedi a ajuda dos vinte e sete Santos que conhecia (de nome) e rezei três ‘Pai-Nossos’ e cinco ‘Ave-Marias’. Tudo em doze ou treze segundos! Um verdadeiro milagre! Ainda assim, não foi o suficiente para fazer a aproximação à curva com a segurança necessária. Resultado? Como não podia trabalhar com a caixa de mudanças que não tinha, vali-me do meu excecional jogo de cintura e da minha incomum (na altura ainda não lendária) flexibilidade. Fiz a curva sim, mas ainda ‘encostei’ (ligeiramente) nuns arbustos ou ramadas (já não me lembro) que evitaram que seguisse viajem a direito (e a voar) para a Quinta da Cova do Barro. A verdade é que cheguei, inteirinho, à meta, no final da louca descida, junto ao Penedo Raso. Só não dei uma volta à rotunda por que ainda não existia.
José António Duarte






TB EU um dia jálonginquo num tb bólide de rolamentos que travava com uma espia e calço de borracha enfiei-o entre as pernas duma querida Madrinha que se atravessou na freta do Bólide e ue pasmada terá pensado que acabava ali seus dias ,mas deveu-se apenas a que eu fraco condutor não consegui dominar a “excepcional” maquina de engenharia feita daquilo que hoje se chama “economia circular” ,fracos recursos mas imaginação e dias felizes…..