Tenho saudades das estações do ano bem definidas. Mandasse eu e tudo mudaria (da noite para o dia) entre cada uma delas. Calor (rijo) no Verão, chuva (miudinha) no Outono e frio (com geada) no Inverno. Deixaria só a Primavera com aquela desejável e doce imprevisibilidade, que obrigasse as senhoras a sair de casa de sandália no pé e de gabardina. Mas acontece que o mundo mudou. As coisas já não são assim. Na verdade, nem as gabardinas se chamam agora gabardinas. São ‘casacos trench’. Já os invernos, continuam (por enquanto) a ter o mesmo nome, mas estão cada vez mais amenos. Aqui e ali quentes. E se tal não é bom sinal (sabemos todos que não) sobra, pelo menos, a vantagem de gastarmos menos lenha. Muito menos! Este ano só comprei três metros. Bem aviados! Pelo menos assim me garantiu o senhor da lenha. Gosto do título. O senhor da lenha. Dava para uma boa série sobre um desses seres mitológicos de aspecto extravagante que vivem camuflados na floresta. Uma vez vi um. Estou a falar a sério! Eu e os meus companheiros de escola. No quinto ano de escolaridade, regressávamos nós a casa no final das aulas, num escuro e muito chuvoso final de tarde de outono de 1980, quando tal aconteceu. Meia dúzia de destemidos ‘cabeças no ar’ arriscaram, como habitualmente, o caminho irregular de terra batida que ligava a (então) nova escola do segundo ciclo à aldeia da Cheira, via Quinta da Corga. Até que, numa área erma (sem ponta de luz à vista) um relâmpago vindo do alto do céu carregado (e zangado) se abate sobre um velho e carcomido pinheiro na beira do caminho. O espetáculo foi, para nós, do mais tenebroso que tínhamos visto até aí. A árvore, alimentada pela energia da descarga, brilhava agora como um gigante luze-cu e parecia querer agarrar-nos. Ainda hoje juro (a pés juntos) que começou a correr atrás de nós. Fugimos, pois claro, de volta para a escola (com muitas quedas pelo meio) e ainda fomos a tempo de encontrar a professora de Francês de rabo sentado numa poça de água, depois de ter tropeçado por falta de iluminação pública fora da escola. Enfim, bons tempos. Mas vinha isto a propósito de quê? Ah, já me lembro, da minha lenha. Está arrumadinha. Quarenta e sete minutos bastaram para empilhar tudo. O esforço mal deu para aquecer. A lenha, essa, logo se verá se aquece também. Como nos melões, só depois da lareira acesa é que vou perceber se queima bem. Quando (e se) vier o inverno, pois claro.
José António Duarte





