Já escrevi muito, aqui, que um dos problemas emergentes no nosso País é a questão da defesa intransigente dos nossos mais desfavorecidos: velhos (ou mais idosos, como queiram), desempregados, deficientes e portadores de doenças crónicas.
Também pedi, no momento certo, que nos concentrássemos na pandemia, procurando criar condições para não nos deixarmos afundar.
Se bem se recordam estava em causa muita falta de civismo, por um lado, muito mau estar nas classes da Saúde, muita probabilidade de o SNS colapsar, pura e simplesmente.
Vivemos -todos- momentos absolutamente dramáticos: hospitais a rebentar pelas costuras; desconhecimento do vírus e dos tratamentos; falhas graves generalizadas na condução da crise.
!… e quase deixámos de pensar, sequer equacionar, o problema explosivo da população desfavorecida que, necessitando continuamente de cuidados de saúde, foi deixada para trás …!
A verdade nua e crua deste nosso País de Abril é que nós todos – embora uns mais do que outros, naturalmente- abandonámos os que nos fizeram vir ao mundo; os nossos avós, os nossos pais, os nossos irmãos e os nossos amigos.
De facto, se algumas pessoas e famílias conseguiram ultrapassar a pandemia, sem problemas de maior, e eu conheço muitas, felizmente, quase nenhuma família pode dizer que não tem um familiar sem o acompanhamento médico necessário, sem consulta ou exame ou auxiliar de diagnóstico, sem Médico de Família, há uma série grande de tempo, sem dinheiro para pagar um simples medicamento, enfim, sem o primeiro apoio objectivo que as pessoas vão precisando ao longo da vida.
Ora,
Aqui chegados, meus Amigos, Caros Leitores do PA, o que importa é, em primeiro lugar, questionar o tipo de sociedade que andámos a construir e tentar fazê-lo sem entrar na discussão ideológica, que, muitas vezes, tolda o pensamento.
E era isso mesmo que eu desejava que hoje estivéssemos a fazer, em vez de acentuar o passa culpas que se institucionalizou!
– Sem retirar o cavalinho da chuva.
– Sem partir do princípio de que a culpa é sempre do outro..
– Sem fugir com o rabo à seringa.
– Sem dar contributos para a solução efectiva do problema, que é imensamente grande, perdoe-se o pleonasmo e que nos deve envergonhar a todos.
Chegámos ao Outono com o País na linha da frente do comportamento cívico em tempo de pandemia; com a dita imunidade de grupo (se é que isso existe mesmo neste caso pandémico) conseguida, tendo, até, encontrado mais um português ilustre no caminho.
Mas esquecemos por completo que quem não teve acesso aos tais cuidados acima, faz fila, hoje, para obter atenção mínima…e não consegue; não tem!
Não deixámos morrer da pandemia, mas vamos deixar morrer de uma qualquer
Doença, indutora natural de comorbilidade, o que é mesmo muito triste.
… e isso, convenhamos, transforma-nos num País sem condição de se querer chamar de digno;
… transforma-nos numa sociedade sem respeito pela vida;
… coloca alguns de todos os outros problemas -que são muitos- a deverem, na minha modesta opinião, aguardar prioridade!
Ou seremos só um País apto a tratar pandemias complexas, que não minudências naturais?
Os nossos velhos deram contributos, ao longo da vida, para poderem ter uma velhice digna e, agora, se a não têm é porque nós, mais novos, não soubemos empregar bem esses contributos.
Não soubemos gerir, nem planificar, nem poupar, nem ser solidários, nem ter respeito, sequer.
Falhámos, pois!

Luís Pais Amante

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10 COMENTÁRIOS

  1. Certíssimo!!!
    Há que tomar consciência e actuar.
    Sem os velhos não existiriam os novos e há que cuidar deles, de todos nós!

  2. Os nossos velhos até fizeram bem o trabalho de casa, conseguiram criar e por em funcionamento um serviço nacional de saúde, nós não soubemos honrar a sua memória. O SNS está no estado em que está por questões de luta ideológica. Matar o público para engrandecer o privado.

  3. Meu amigo Dr.Luis, meus parabéns pelo trabalho o senhor faz e continua fazendo.Os nossos velhotes tanto lutaram por isso todos temos direito é dever do Estado melhorar mais as condições de saúde.
    Abraços

  4. Bom dia aos Leitores do PA
    Hoje o Luís tomou a palavra e vestiu a pele de nós todos que acreditamos no Serviço Público e o consideramos, mesmo, um Direito inalienável.
    Não podemos desistir porque isso equivale a deixar muita gente indefesa para trás!

  5. A sociedade constrói-se todos os dias. A mudança ocorre a cada segundo que passa. É o nosso tempo, o nosso momento. Façamos da nossa vida a sociedade em que acreditamos e deixemos de ser meros espectadores.

  6. Precisamos ser sacudidos por mensagens como esta, para que nos lembremos de que estamos conectados de alguma forma com a humanidade. Ouvimos todos os dias da necessidade de que cada pessoa tem sua responsabilidade na proteção e preservação ambiental, mas isso será pouco efetivo se não cuidarmos das pessoas.

  7. Começamos a verificar, com espanto, que a tão desejada “recuperação” tem os seus quês, até porque começam a saírdo nosso armário colectivo uns esqueletos que nos reconduzem a pensar o que temos vindo a fazer, enquanto sociedade, nos últimos anos.

    Ora um desses esqueletos que saíu do nosso armário, diz respeito á saúde dos nossos mais velhos.

    A primazia total e absoluta conferida ao covid, na vã tentativa de aniquilar o vírus, levou a que se esquecesse a possibilidade de as medidas sanitaristas adoptadas poderem originar significativos danos colaterais, sobretudo quanto a outras morbilidades, crónicas ou não, mas igualmente letais, cujo tratamento foi descurado. E não fora a postura cívica e responsável da grande maioria do povo português, teríamos tido uma conjuntura cuja resolução poderia ter sido bastante complexa…

    Durante cerca de um ano e meio vivemos e comentámos de forma sensacionalista estatísticas e cenários, porventura exagerados, graças a uma política de comunicação manifestamente desastrada. Concede-se que terá sido bem-intencionada mas, graças ao fundamentalismo sanitarista que lhe estava subjacente e á linguagem bélica utilizada, na prática, esta postura acabou por se revelar eficiente apenas para criar medos, fobias e ansiedades desnecessários que acabaram por desestruturar laços sociais e familiares.
    E aqui lembremos especifica e concretamente dos nossos mais velhos, conforme o faz o Luis Amante no seu texto.

    Mais desfavorecidos graças ás fragilidades próprias da idade e ás contingências de eventuais dificuldades económicas acrescidas, os nossos mais velhos terão sido os que mais sofreram com a pandemia.

    Desde logo porque, graças á clausura e isolamento que lhes foram impostos, saudosos do afecto dos seus seres queridos, muitos terão pura e simplesmente desistido de viver e terão partido envolvidos na mais miserável solidão.

    Mas não esqueçamos aqueles que levavam vidas apagadas e solitárias nas suas casas, ou nos lares e casas de repouso, por vezes sem condições adequadas e tratamento condigno, cujas vazias rotinas diárias apenas eram quebradas pelas esporádicas visitas de familiares ou amigos e que, de repente, se viram atingidos por uma moléstia quase desconhecida e cujo desfecho fatal era quase inevitável. Quanto sofrimento!

    E até agora, que fizemos nós para lhes poupar tão lamentáveis fins de vida? Pouco, muito pouco, como se vê.

    Que condições nos propomos criar, a partir de agora, para modificar este estado de coisas e evitar que tudo isto se repita?

    Deseja-se que este texto do Luis Amante possa ser o ponto de partida para uma reflexão honesta, mais alargada, porque a verdade é que se precisa de novas e mais equilibradas soluções para estes problemas.

  8. Dr Amante, a questão é uma só.. o quanto estamos dispostos a abrir mão dos nossos previlégios em beneficio de todos nós… isso está dificil de acontecer porque somos poucos para muitos… e poucos que, como cita, não souberam e continuam sem saber gerir o patrimonio de nossos égregios avós, um país de nome Portugal.

  9. Certíssimo tudo o que o Luís nos transmite nestas poucas mas certeiras palavras! Plenamente de acordo!! Aí os nossos Velhos…
    De salientar que toda esta situação se arrasta ao longo dos últimos 40 anos… o SNS nunca teve uma gestão condigna para com os nosso povo! A formação aos auxiliares de ação médica não existe, deixando muito a desejar, passando pelos serviços apinhados de doentes principalmente imigrantes, não obstante os salários VERGONHOSOS a todo o pessoal que está no terreno da saúde, de salientar que todos aqueles que a sua boa formação intrínseca, moral e de doação ao próximo ainda vai existindo mas tendenciosamente em vias de extinção !
    Soluções??
    É a promiscuidade do nosso Portugal, do deles SNS!

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