Hoje da Serra as palavras a correr encaixam tão bem na nossa realidade social que até parece que forma escritas com isso em vista.
As notícias têm sido engraçadas. Ouvimos falar de um rendeiro que desaparece do país porque quer manter a sua camisinha Gucci de colarinhos imaculados. Ouvimos falar da mulher dele que ficou fiel depositária de obras de arte que deveriam ter sido colocadas em segurança pela justiça e que provavelmente já as colocou bem longe do alcance da Justiça. Por este pouco fico por aqui a pensar que à frente desta Justiça ou temos a Inocência ou a Corrupção, não consigo imaginar outra personalidade. O livro que hoje por aqui fica fala precisamente disto, de corrupção, de dinheiro, de poder, de políticos e ladrões (categorias que se misturam muitas vezes…). Fala também dos tentáculos tenebrosos que se estendem por baixo das mesas da finança entrando nos bolsos das gentes. De uns tiram até ao fim e noutros deixam e deixam e deixam. Com estes movimentos conseguem calar vozes e consciências. A falta de dinheiro cala as vozes a acumulação cala a consciência, no caso de haver… Estes movimentos da banca acabam por ter consequências que por enquanto são custeadas por todos nós. Temos que pagar, não se pode permitir o colapso da banca, seria um horror para a economia mundial, este argumentário é perfeito, acende discussões que se propagam a todos …Deve ser uma figura fascinante, essa economia. Em seu nome são sacrificadas milhares de vidas.
O autor que hoje proponho é jornalista. O livro que nos oferece tem uma personagem aparentemente biográfica, a realidade que retrata é a nossa. Plasmada com franqueza, frontalidade e sem filtros. As personagens são nossas conhecidas, pelo destaque que lhe dão as notícias. O nome delas vai variando conforme os casos. As figuras centrais são a Corrupção, a Ganância, a Desonestidade e o Poder. Este último tem uma família mais alargada, por exemplo o Poder Político, o Judicial, o dos Meios de Comunicação, mas todos eles reféns dos banqueiros. O texto é bem estruturado, situado num género de policial acelerado, em que o tempo é inimigo quase tão mortal como as figuras encapuçadas por fatos Armani. Fatos esses que não escondem a vileza apenas a relegam para um plano mais restritivo a olhares.
Marcelo Silva ousou enfrentar o Poder. Marcelo Silva nem imagina as voltas que o Poder é capaz de dar para conseguir a sua vingança.
Miguel Szymanski

Ouro, Prata e Silva

“António Carmona e o ex-ministro acabavam de se sentar na mesa onde antes estava o casal de advogados. Margarida sorriu-lhes e ambos a cumprimentaram, Carmona com um olhar acossado e um discreto aceno de cabeça, enquanto o ex-ministro, enchendo primeiro o peito como uma rola, acenou como quem diz “sim sou eu mesmo” e acompanhou toda a exibição com um sorriso repleto de dentes brancos tão naturais como a porta de um frigorifico.”
“Os principais grupos financeiros compravam e contratavam políticos de todos os partidos. No maior grupo privado havia seis ex-ministros na administração. Mas, desde a queda do último financeiro conhecido como “Dono disto tudo”, estava em curso uma guerra de bastidores pelo poder.”
SINOPSE
Marcelo Silva , o jornalista de investigação, aterra em Lisboa vindo de Berlim para se tornar um “super-policia” no combate ao crime de colarinho branco.
António Carmona, é um banqueiro, presidente de um pequeno, mas muito importante, banco privado, o BVG. É também um proprietário rural em cujo monte são feitos negócios de milhões enquanto são dados uns tiros, reais ou metafóricos, numas peças de caça que tanto podem ser animais como humanas. Neste monte alentejano, é criada memória visual que poderá fazer cair muita gente. O sistema de vigilância interna mostra as bestas que se escudam em fatos feitos por medida em alfaiatarias exclusivas, usam sapatos feitos à mão, mas não passam de aberrações nojentas. A existência dos encontros no monte de António, com os serviços prestados, mostra como o lixo se reconhece e tolera os seus cheiros nauseabundos.
Marcelo vai trabalhar para o “o Instituto”, descobre que lá dentro está a Corrupção. Cá fora tem semeados os instrumentos humanos que lhe podem garantir a sobrevivência à sua curta passagem pela “super-policia”, desde logo o dono do quiosque em frente ao edifício, cujos olhos e ouvidos lhe vão garantindo informações capazes de o manterem vivo.
Margarida é uma mulher ainda viva mas já morta que quer ajustar contas com a vida e com o seu carrasco.
Estas são as personagens centrais, sobre as quais vai ser construída a trama. Políticos e banqueiros (nacionais e estrangeiros), agiotas e seus capangas, comendadores, assessores de políticos e magistrados fazem parte da clientela que alimenta e se alimenta de um bolo de proporções colossais, mas sem hipótese de crescimento eterno. Algumas cabeças terão, por isso, que poisar no cepo…
Boa semana com livros!!!!
Anabela Bragança












