Só fui uma vez à livraria Lello. Gostei. Na realidade adorei. Contudo foi uma visita sui generis. Noutras condições teria sido mais profícua. Passo a explicar. Numa das várias estadias num determinado “hotel” do Porto, houve uma que se prolongou um pouco mais embora com direito a saídas ao exterior. Numa dessas saídas o meu António cismou que queria visitar a livraria. (Ainda bem que o fez… ) chegámos e a fila era para além de  grande. Tive que pensar numa forma de proporcionar a visita desejada. Ficar na fila era impensável, nem tínhamos o tempo nem a resistência física necessários… procurei na caixa a solução e de facto a visita consumou-se. A entrada foi imediata e o espetáculo maravilhoso. Adorei ver o espanto espelhado no rosto do meu António. Adorei ver aquelas estantes, as escadas, o buliço… O medo impediu-me de aproveitar devidamente o espetáculo, mas mesmo assim trouxe comigo um livro fabuloso, que no dia seguinte foi tema de conversa aquando da visita do médico. É esse livro, lido em tempos de espera, que hoje vai correr Serra abaixo. Se a alguém apetecer ler espero que sintam a mesma urgência que eu, a mesma febre devoradora, o mesmo frenesim… hoje da Serra saem palavras de Afonso Cruz no seu romance Nem Todas as Baleias Voam.

Afonso Cruz

Nem Todas as Baleias Voam

“O programa americano pode ter falhado – o Muro só viria a cair muitos anos depois -, mas a esperança que esteve na sua base, ainda que utópica, não deixa de ser maravilhosa: a possibilidade de uma guerra poder terminar num baile em vez da explosão de uma bomba de hidrogénio.”

“Na altura o racismo americano fazia que os pomares frutificassem cadáveres. (Strange Fruit” era uma canção tão boa que Nina Simone, completamente fascinada, afirmou: ”Nunca ouvi nada tão desagradável.” E a seguir teve de ir à casa de banho, tinha os intestinos às voltas, a alma a pingar. Há canções que fazem bater palmas, não são más; mas depois há  outras, as que silenciam a plateia ou que fazem uma revolução no corpo ou que dão um coice no estômago.)”

“No dia em que percebeu que ela se tinha ido embora, Erik Gould abriu a porta da rua , lentamente, e saiu para o jardim. Ficou parado em frente aos canteiros de flores. Tirou o cinto, despiu as calças de fazenda, depois a camisola de lã com imagens de gazelas a saltar, depois a camisola interior de alças, depois as meias pretas. Ficou nu no meio das flores. Debruçou-se e rasgou as mãos no canteiro das rosas. Abraçou-as, acariciou-as, até sangrar das mãos, dos braços, do peito, dos lábios, do sexo, da cara, até não poder mais com a dor espetada na cara.”

Sinopse 

Gould é um homem. É um músico, é um apaixonado. Pela música e pela mulher. Toca piano. Acaricia cada tecla do piano como se fizesse amor. Erotiza as notas da partitura, tornando a sua música quase obscena, como se ouvi-lo fosse uma intrusão na intimidade que a partilha erótica impõe. Um dia a única mulher com quem se partilhou não está. Ao aperceber-se do desaparecimento inflige-se dor física na esperança de ofuscar a outra, a da alma. Aquela que é provocada pela ausência, pela incerteza e pela esperança. A esperança impede a dor de passar porque aguarda sempre pelo dia do regresso, cada dia que passou é a véspera do vindouro que pode trazer de volta a sua Natasha. Este homem apaixonado procura desesperadamente a mulher desaparecida sem deixar rasto. Ambos se movem nas areias movediças da espionagem. Têm um filho, Tristan, que também não entende o desaparecimento misterioso da mãe, que julgava imortal, mas tenta aceitar a sua deserção. 

Isaac Dresner é editor de uma modesta editora. Publica obras de um autor desconhecido que se mantem no anonimato. A sua mulher, artista de sensibilidade à flor da pele, sente que algo não é correcto neste mistério, contudo os textos são soberbos e só isso interessa ao editor. Só nós ficaremos a saber que esses textos foram escritos pela ponta acerada do desespero. 

A história, de espiões e relatórios de espionagem,  é-nos contada com figuras de estilo que permitem uns sorrisos envergonhados ou mais abertos, como por exemplo quando “o caroço do brandi germina” e origina, durante a noite uma “árvore adulta que estendia os braços pelo seu corpo”. O relato a várias vozes e em tempos pelo menos aparentemente distintos permite-nos construir uma trama que se revela tenebrosa e sinistra.

Boa semana com livros!!!

Anabela Bragança

Artigo anteriorHá 38 cursos do ensino superior em que nenhum aluno foi colocado na primeira fase
Próximo artigoAutárquicas: PSD ganha a câmara de Penacova ao PS com maioria absoluta

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui