Nesta minha crónica de hoje , vou abordar o tema Famílias e Envelhecimento.
A Família constitui a linha da frente da relação humanizada, personalizada e dignificante da pessoa, em qualquer fase da vida e em qualquer idade.
A sua estrutura é sempre um encadeado de interdependências, de entregas e de dádivas que acolhem todos os elementos como parte integrante de um todo comum.
Em tempos difíceis, é no seio familiar que subsistem os laços de coesão social e de cooperação, o espaço em que os indivíduos, reencontram o seu lugar insubstituível, o seu abrigo.
Mas de que famílias falamos? Temos de analisar a família face aos desafios do Envelhecimento Populacional.
Hoje, a família que se situava perante o idoso como um sistema solar encadeado pela luz do respeito e da experiência, não corresponde à imagem actual das famílias.
O que observamos agora é uma multiplicidade de agregados que vão mudando em virtude da própria dinâmica dos seus elementos, dos seus conjuntos, da procura egoísta da felicidade ou da forte cadeia da solidariedade.
Não me revejo no grupo daqueles que têm relativamente às famílias de hoje, uma postura critica e desalentada.
É verdade que os casamentos são fugazes, que as famílias se desdobram em relações até há pouco inimagináveis, que se multiplicam as convivências sem o enquadramento do matrimónio, os agregados homossexuais, as situações de monoparentalidade, que as famílias têm menos filhos e que a imagem dos idosos é muitas vezes desvalorizada.
Contudo, também é verdade que a maioria das mulheres já não se encontra subjugada ao elemento masculino, que os filhos são produto de uma escolha, que o nascimento de uma nova célula familiar não é imposto nem constitui um sacrifício, que já não existem leis de morgadio nem de bastardia e que os ascendentes idosos, tendo protecção social, não dependem , totalmente, do apoio dos filhos.
Neste sentido, o conceito de Família mudou, transfigurou-se, alargou-se e exige de nós a flexibilidade de o acolher, de o reconhecer e de o proteger, com a mesma tolerância com que as famílias aceitam a diversidade dos seus elementos.
Quando falamos hoje de família e independentemente dos nossos credos e convicções, urge visualizar todo o conjunto de relações que aproximam as pessoas , que as fazem coexistir e cooperar e que constituem um alicerce de felicidade e de apoio.
Constatamos uma enorme multiplicidade de arquitecturas familiares. E neste contexto de novas estruturas familiares, que lugar ocupam os mais velhos? Mais uma vez, deparamo-nos com uma imensa galeria de situações.
Encontramos pessoas idosas isoladas, resistindo nas suas aldeias ou em habitações degradadas nas zonas históricas das cidades, longe dos seus filhos e netos, emigrados em busca de outro tipo de vida.
Defrontamo-nos com idosos enclausurados à força ou sob coacção, colocados fora do núcleo familiar e aqueles que saltitam entre as casas dos filhos, em situações temporárias de hospedagem, dormindo nos sofás camas, com a mala dos seus pertences num armário ocasional.
Mas também encontramos pessoas idosas que acolhem na sua casa os seus descendentes e que com eles, fazem uma economia conjunta, construída sobre as entregas comuns.
E aqueles que mantêm a sua independência e habitam sós, sem prejuízo da existência de uma relação saudável de cooperação e respeito com os seus parentes.
E finalmente, aqueles idosos que substituem os seus filhos e assumem a educação e o sustento dos seus netos, comprovando a imprescindibilidade da sua intervenção na vida familiar.
O lugar dos idosos na família resulta da sinergia endógena do próprio agregado, do percurso dos seus membros, da forma como as ligações e os afectos se construíram ao longo da vida.
E depende, também, das variáveis exógenas que condicionam a manutenção dos laços afectivos e a prestação de cuidados aos elementos mais dependentes.
É , pois, incorrecto, generalizar a imagem de que as pessoas idosas já não influenciam a vida familiar e que constituem um encargo para os seus descendentes.
Na verdade, entre as pessoas idosas e a sua família, desenvolve-se a mesma diversidade de relações que se estabelece entre os demais elementos do mesmo agregado e as interdependências variam consoante os afectos, as disponibilidades, as condições de vida, as perdas de autonomia, enfim, resultam de um longo caminho construído ao longo do tempo.
Diremos numa versão optimista que e citando a Professora Ana Alexandra Fernandes “ A Instituição Familiar é ainda o garante da solidariedade necessária aos ascendentes em situação de velhice.” Por outro lado, há opiniões menos optimistas e citando Maria Tersa Soares sobre as Pessoas Idosas e Família, observa-se “ uma ausência da simetria nas relações entre pais e filhos”, já que a melhoria de condições económicas dos descendentes não se traduz no aumento da qualidade dos cuidados prestados aos ascendentes, nem na disponibilidade para a sua prestação directa.
O que é importante analisar é se a demissão crescente das famílias se deve, unicamente, à predominância de um sentimento egoísta e a um deslaçamento progressivo dos laços de amor, respeito e tributo recíproco.
Ou se a família se confronta com obstáculos ao seu desempenho, que dificultam e impedem o cumprimento das suas obrigações relativamente aos mais velhos, designadamente, quando estes perdem a sua autonomia.
E por tudo isto, nada de julgamentos. Cabe a cada um de nós, enquanto seres humanos, perceber a importância da partilha de responsabilidades, ao nível do planeamento do envelhecimento e apoio aos familiares .
Termino esta crónica com uma frase de Chico Xavier que diz o seguinte: Hoje auxiliamos, amanhã seremos os necessitados de auxílio.
Rosário Pimentel





