Continuando na saga de O Cemitério dos Livros Esquecidos hoje da Serra correm palavras de O Prisioneiro do Céu. Os quatro volumes desta saga podem ser lidos de forma isolada, uma vez que cada um encerra uma história com princípio meio e fim, contudo a mestria da escrita deixa-nos sempre a querer mais. Saber que Fermín anda por aí com tanto para contar impele-nos até à obra seguinte. Embora saciantes, os volumes deixam sempre espaço a mais qualquer coisa, o assunto tratado está resolvido mas ainda fica algo por dizer, algo que nos faz voar para o livro seguinte. Ainda falta o quarto…
Carlos Ruiz Zafón

“É difícil dormir nesta casa, entre homens que não sabem parar de chorar ou apalpar o traseiro a uma pobre-coitada que não consegue dormir mais de duas horas por noite.”
“-Se é assim, por que se calou? Por que não fez nada?
– Por si Daniel. Por si. O seu pai agiu como muita gente a quem lhes tocou viver aqueles anos e tudo engoliram e calaram. Porque não tiveram alternativa. De todas as fações e de todas as cores. Todos os dias se cruza com eles nas ruas e nem os vê. Apodreceram em vida todos estes anos com essa dor dentro, para que o senhor e outros como você pudessem viver. Não se atreva a julgar o seu pai. Não tem esse direito.”
“Fermín fitou aqueles olhos pretos anuindo devagar.
-Em que cela esteve, Armando?
-Na 13.
-Eram suas as marcas de cruzes nas paredes?
– Ao contrário de si, Fermín, eu sou crente mas já não tenho fé.”
“Teve cem ofícios e nenhum amigo. Ganhou dinheiro que gastou. Leu livros que falavam de um mundo em que já não acreditava. Começou a escrever cartas que nunca soube como terminar. Viveu contra as recordações e os remorsos.”
“E digo-lhe mais, as bandeiras mais me parecem trapos coloridos que fedem a ranço e basta-me ver que se envolva com elas e com a boca cheia de hinos, brasões e discursos para ficar de caganeira.”
Sinopse
Fermín vai casar. A sua adorada Bernarda está com um “ligeiro atraso”. Não há nada no mundo que Fermín queira mais do que aceitar a sua Bernarda das mãos de Don Gustavo. Por ela até aceita fingir que não é um ateu tão ferrenho como apreciador de Sugus e sujeitar-se a aspirar os vapores de sotaina sem proferir palavra à altura. Daniel percebe que o amigo anda mal, o seu sentido de humor foi abandonado numa qualquer esquina de uma calle de duvidosa reputação, o seu corpo, sempre seco de carnes, está reduzido a peles e ossos. É este o estado de espírito que embala Fermín a contar a sua passagem pela cela 13 do castelo de Montjuic, onde acabou por morrer. Fermín Romero de Torres foi um toureiro de nomeada suficiente para ter direito a cartazes de grandes dimensões a anunciar as suas lides, presume-se que algo equivalente aos atuais outdoors. Ao nosso amigo apreciador de Sugus mais que de hóstias, este nome pareceu muito melhor do que o que o caracterizava quando conseguiu escapar das garras e do maçarico do Inspector Fumero. Nasce assim, pela segunda vez, e adota o nome com que embateram os seus olhos. De inicio é apenas um nome para apagar o outro de má memória para o regime, com o passar do tempo passa a ser uma identidade, da qual não se quer livrar pois é esse homem o amado da Bernarda, é esse homem o amigo de tantos, é esse homem que vai ser pai de um rebento, que se à providencia aprouver há-de sair com um nariz respeitável e um metabolismo digno de seu pai e sua tia Jesusa, é esse homem que quer ser até morrer. Como bom amigo que é Daniel vai garantir que Fermín possa continuar a passear o seu esqueleto pelas calles de Barcelona de braço dado com a sua Bernarda. Para tal serão requisitados os trabalhos do professor Albuquerque, de Oswaldo Darío de Mortenssen e de Luisinho para forjarem de forma tão correta a ressurreição de Fermín que a sua morte passará ser uma má memória.
Enquanto estes passos são dados Fermín vai contar a Daniel umas histórias do passado que envolvem a sua mãe, David Martin e Mauricio Valls. O esqueleto principal de personagens é mantido, com a perfeição que caracterizou a construção de Zafón, as novas personagens são integradas na narração remetendo para pequenos pormenores dos textos anteriores. Daniel vai ficar a conhecer o percurso de vida da sua mãe, de David Martin e a mão macabra de Maauricio Valls. Esta personagem é referida, de forma um pouco displicente, no primeiro volume, já na recta final, provavelmente ainda nos voltaremos a encontrar por aí…
Cascos Buendia reaparece e vai experimentar a intensidade da paixão de Daniel. Por isso este vai sentir a vergonha que o ciúme é capaz de parir…
No primeiro livro o horror da guerra está implícito, mas não explicito, como Isabella pediu ao sr. Sempere. O pequeno Daniel, e todos os leitores foram poupados. Neste livro o horror está plasmado no texto, as dores, física e emocional, são palpáveis. É impossível ignorar a prisão de Montjuic, as valas comuns onde são despejadas pessoas que poderão nunca morrer, o Bairro de Somostro e todos os desvalidos que alberga, muitos deles mortos vivos…
Boa semana com livros!!!
Anabela Bragança



