Durante estas primeiras semanas de Verão (ausente…) vou vaguear pela cidade de Barcelona antiga, a Barcelona do início do século XX, com as suas ruelas e avenidas.
Há uns anos visitei Barcelona e adorei. As ruelas estreitas da cidade velha em contraste com as suas avenidas largas, as marcas de Gaudi, o mercado de La Boqueria onde me perdi de amores pelas suas cores e cheiros. Peixe, carne, mariscos, queijos e manteigas, cogumelos, especiarias, chocolates, compotas, pão, bolos, frutas, legumes e flores dispostos numa harmonia tal que o resultado final é um festim para os sentidos.
Na semana passada Zafón levou-nos numa viagem nesta cidade que começou em 1945 e terminou em 1966. Conhecemos a dureza da vida numa cidade devastada pela guerra civil, onde o compadrio e a corrupção são as árvores com raízes mais profundas, mesmo decepando uns ramos o essencial mantem-se vivo e capaz de continuar a crescer. Temos um vislumbre dos desmandos policiais, dos desaparecidos no castelo de Montjuic, das valas comuns. O Cemitério dos Livros Esquecidos é O porto seguro numa cidade perdida entre brumas e nevoeiros, onde o Mal espreita a cada esquina lado a lado com o Bem.
Por hoje, da Serra, as palavras que correm são de Zafón de O Jogo do Anjo. Cronologicamente este romance antecede o A Sombra do Vento e permite-nos conhecer Isabella, a mãe de Daniel.
Carlos Ruiz Zafón

O Jogo do Anjo

“A inveja é a religião dos medíocres. Reconforta-os, responde às inquietações que os corroem por dentro e, em última análise, lhes apodrece a alma e lhes permite justificara a sua mesquinhez e cobiça a ponto de acreditarem que são virtudes e que as portas do céu se abrirão apenas aos infelizes como eles, …”
“Não era preciso restringir a presença de fêmeas nos quartos porque não havia uma única mulher em toda a cidade de Barcelona que tivesse aceitado entrar naquele tugúrio nem sob ameaça de morte.”
“A justiça é uma extravagância da perspectiva, e não um valor universal. (…) Mas se preferir guardaremos um minuto de silêncio.
– Não é necessário.
– Claro que não. Só é necessário quando não se tem nada válido para dizer. O silêncio faz com que até os ignorantes pareçam sábios durante um minuto.”
“A história é o vazadouro da biologia, Martín.”
“Um dos primeiros recursos próprios de um escritor profissional que Isabella aprendera comigo era a arte e a prática de procrastinar. Todos os veteranos do ofício sabem que qualquer ocupação, desde afiar os lápis até catalogar insectos, tem prioridade sobre o acto de se sentar à mesa e espremer o cérebro.”
Sinopse
Em 1917, David Martín, um jovem moço de recados da redacção do “La Voz de la Industria” com aspirações a escritor é convidado a preencher a última página do jornal com uma história que Don Basilio, o sub-director, nunca tivesse lido, ou “se já o tivesse feito, teria de estar tão bem escrita que não a reconheceria”. A história nasce sob a forma de capítulos semanais, torna-se um dos pontos de interesse do jornal e atrai de tudo a Martín, excepto dinheiro. Andreas Correlli, a perfeição sobre pernas, eventualmente por ter perdido as asas aquando da sua queda, encomenda ao jovem escritor a história da sua vida, paga a peso de ouro, contudo pede contrapartidas demasiado altas. Martín aceita e vai acabar por pagar, depois de muito se ter esforçado para rescindir o contrato… Cristina, vai-lhe ser arrebatada e re-oferecida apenas para que Martin sofra a dor da perda. Pelo caminho conhecemos Isabella, a mãe de Daniel, que sem grandes alardes se apaixona pelo senhor Sempere. A sujidade e a decadência vão cobrar um peso demasiado pesado e Isabella acaba por perecer. O senhor Sempere personifica a calma que mantem em A Sombra do Vento. O enredo é denso, o suspense nunca deixa de o ser, cada pista apenas abre um leque maior de outras, as personagens, aparentemente sem ligação, acabam por preencher as vidas umas das outras de forma apaixonada e trágica. Sendo uma narrativa densa, de descrições ambientais fortes, é impossível não sentir o vento cortante em Pueblo Nuevo, os cheiros terríveis das celas de prisão do comissariado da polícia, o frio que tolhe os movimentos ou o cheiro de carne queimada.
Boa semana com livros!!!
Anabela Bragança


