Eu sou o teu melro passarão
Casa Azul
Poiso-me no ramo grande da figueira
Canto-te na face trigueira
Repenico a salsa ao florescer
E as ervas ao crescer
E as migalhas caídas da farra ao anoitecer
Na Quintã do Nosso Sonho Azul
Comia os figos todos, chegando a ter diarreia
Até começares a apanhá-los para produzir doce e geleia
Com a tua marca, que vão indo lá pró Sul
Já me esqueci qual o tempo certo a que ando por aqui
E cogitei sempre quais as razões porque não abrias, antes, ao serão
… E porque é que não me foste, entretanto, estendendo a mão …
Há poucos meses vi ressuscitar o teu azul cobalto
Igual a um outro por onde passei
No Bairro de Cocoyacán, Cidade do México
Casa de Frida Kahlo, Pintora
E fiquei, sinceramente, estarrecido
Pela beleza do tom
Pela nobreza do som da trovoada em ricochete
Pela sombra que provoca no Rio
Pela onda de choque bom, sem calafrio
Que vai causando
Nos vizinhos
Nos conterrâneos
Nos navegantes da saudade
Nos amantes da liberdade
Nos confrades da amizade
E nos artistas de verdade
Hoje quero apresentar-te a minha melra
Que encontrei ali em baixo, no Olival
Gemendo da condição de estar mal
Com o bico da paixão um pouco quebrado
A precisar de arranjo enamorado
Reconheci-a de quando era amante vadio migratório
Exótico de peneiras, segundo elas satisfatório
Olhei para ela, lambi-lhe a ferida
E fiquei enternecido com o seu olhar amigo
Com o meu bico (amarelo)
Salpico o dela, bonito
E fiz como os humanos, beijando-a enternecido
Dando-lhe massagens no pelo castanho
Sussurrando-lhe o meu amor e o seu tamanho
Puxei-a, entretanto, para a tua parreira de uva melão
E, desde então, ali temos feito ninhos
Ali fecundámos ovos de mel
E criámos centenas de crias que vão partindo
À procura de outros cenários e até de alguns calvários
O movimento de agora obriga-nos a ir pra fora
Pela manhãzinha
Regressando à tardinha
Anda sempre uma senhora loura de dente marfim por aqui a jardinar
E um senhor gordinho a poetizar…e a pensar
Várias vezes as crianças a brincar
Outras tantas pessoas a cozinhar
Tudo vidas que nós estamos a adorar
… Até ansiando com todos eles sociabilizar …
Sabes, a tua terra dá-nos ar puro
Sem termos que lhe pagar qualquer seguro
É a mais bela de todas por onde voei sem trela
Se me permitisses, Casa Azul
Fazia-te um pedido sincero, não zombeteiro:
– Será possível arranjares-nos um ninho fixo, de pau de amieiro?
Colocado virado pró Reconquinho
Logo ao lado do Galinheiro? …
… É que a nossa diferenciação positiva com os galos capões e as galinhas
É termos chegado aqui primeiro
E não ser justo, nem equilibrado, nem ordeiro
Eles todos ficarem plantados, com ar condicionado, debaixo de telha vã
E nós não sairmos da condição de sem abrigo militantes, virados para a Lousã
Em troca
Prometemos acordar-vos sempre às sete da hora antiga (que até castiga…)
!… Com oferenda dos nossos cânticos melodiosos…!
Palavra de melro
Luís Pais Amante
Casa Azul
Quando acordei com os melros do quintal contentes com a nossa companhia, oferecendo
cânticos melodiosos!

Luís Amante, vc acordou com o canto dos
melros e o seu poema me acordou para as
sutilezas do cotidiano ao nosso redor. Riquezas e mais riquezas se revelam para a
sua alma poética e vc compartilha tudo isso com seus versos. Cada vez mais aumenta meu desejo de visitar a Casa Azul e olhar
para o Mandego saboreando uma geleia de figo.
Este poema está de facto muito bem pensado, muito descrevendo do que vai sendo a nossa vida por aqui.
É, assim, tal e qual.
E o teu melro mais a sua companheira, fazem os nossos encantos, visitando sem convite as nossas casas sem mordomo.
Gostou do azul…ali decidiu morar.
Fico contente, apesar de também eu gostar de lhe dar guarida.
Não importa! O que importa é a escolha que ele fez da nossa bela Penacova que o sr. Tão bem descreve.
Continue a escrever…assim.
Adorei este poema.
Obrigada pela publicação.
O merlo desabafa com a Casa Azul, que bem conhece e até assistiu às suas dores da idade. Ali tem feito a sua vidinha com a sua amada, desde que assentou e tomou juízo, encontrando tudo de que precisa para ser feliz e, onde construiu o seu comodo e, onde, a sua filharada nasceu e partiu no seu voo libertário.
Assistiu ao renascer da casa, agora verdadeiramente azul…tão bonita!…e aos movimentos de estranhos simpáticos, que não incomodam.
Contudo, sentia-se um pouco despeitado, pois ele anda por ali há anos e acha que não foi dada a mesma atenção que está sendo dada aos residentes da capoeira, que chegaram depois, e por ali andam emproados na sua casa nova, construída de raiz. Assim, perante tamanha desconsideração, reclama para si, e sua amada, um ninho permanente, com vista para o Reconquinho. Como não tem forma de pagar o favor, fica a promessa de todos os dias de manhã, lá pelas sete, acordar a Casa com o seu belíssimo canto, como só ele sabe cantar.
Que bela história, superiormente contada em verso!
Com certeza a Casa Azul vai ter em conta o pedido do melro e atender aos seus direitos históricos, afinal, este bichinho, já faz parte da família e é um grande animador.
Gostei imenso pela subtileza do tema. Espero por outros trabalhos.
Abraço
Uma bela viagem