Na semana que o Penacova Actual dedicou à “Prevenção dos maus tratos infantis”, socorro-me do meu não especialismo na matéria, a não ser aquele que se limita a uma espécie de senso comum e que na pior das hipóteses produz banalidades mais ou menos vazias sobre um assunto da tanta importância. O risco é assumido e é por ele que decido avançar, ainda que de modo breve e contido.

Cresci numa aldeia onde era impossível não ver miúdos (eles e elas) na rua, a correr, a saltar, a jogar à bola, muitas vezes entre um pedaço de pão e uma palmada de mão.

Do riso ao choro e de novo ao riso poderia ir meio segundo e a liberdade era uma conjugação de sol, frio, calor, chuva, vento, de calças e meias rotas, de arranhões e canelas partidas. A rua tinha a infinita cobertura do céu e uma corrida tinha um fim sempre mais além, onde o apenas o esforço traçava a hora de recolher.

Hoje, na mesma aldeia, tornou-se quase impossível ver miúdos na rua, quanto mais a correr, a saltar, a jogar à bola…

Mesmo antes da desta Pandemia que nos empurrou tanto para entre paredes, a maioria dos (cada vez menos) miúdos da aldeia – a natalidade, para muitos casais, é um salto no escuro – permanece em casa, agarrado ao eletrónico consolo das plataformas de jogo, uma infância em modo de eletrónico simulacro de tudo, uma liberdade estigmatizada pelas paredes, pelo conforto de um sofá, pelos limites que a segurança impõe e a realidade – não simulada – lhes serve quase sem alternativa ou contraditório.

As mesmas ruas, agora, mais não são do que corredores de silêncios e ausências.

São outros tratos.

Se são bons ou maus, o futuro o determinará através dos papeis que os miúdos de agora, limitados a um demasiado perene céu de betão e tinta branca, irão cumprir numa sociedade que protegendo-os mais, os amputa, aqui, ao azul do céu ou às gotas da chuva.

Ao menos que nesse futuro próximo nunca deixem de perguntar. “Nunca deixem de semear porquês nos caminhos que percorrerem!”*

*Hans Küng

António Luís

 

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