Liliane dos Santos acedeu amavelmente ao convite do Penacova Actual, para partilhar connosco a sua sensibilidade pessoal relativamente a este período de ‘televida’ que estamos a viver. ‘Muito jovem’, ainda e como convém, é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de estudos ingleses e alemães, pela FLUC e em Português pela mesma Universidade.

É filha da terra, com pais pertencentes à aldeia de Chelo, freguesia de Lorvão e com Chelo sempre no coração. Vive em Coimbra há cerca de 10 anos.

É casada com Luís Silva, enfermeiro e ambos são pais de um menino, que completará 6 anos em junho.

Atualmente exerce funções como Professora/Formadora de Línguas e é ‘eterna estudante na Universidade’!

Quais foram as alterações de rotina do agregado familiar mais significativas do agregado familiar com a realidade do teletrabalho?

Perante esta nova realidade do teletrabalho, todas as possibilidades tiveram de ser (re)pensadas e (re)avaliadas, na medida em que a exigência era maior. Havia a necessidade de encontrar estratégias para ensinar e dar formação num contexto síncrono e a um público bastante diversificado, pois era composto não só por jovens, mas também por adultos que nem sempre tinham o à vontade suficiente para trabalhar com os instrumentos tecnológicos, nomeadamente em frente a um telemóvel ou computador.

De repente, confrontada com esta realidade que implicou conseguir trabalhar a partir de casa, e perante esta “nova” forma de ensinar, de dar e fazer formações, workshops, e ainda ter aulas online, foi importante nunca baixar a cabeça e tentar ao máximo protegermo-nos a nós e aos outros. Graças à tecnologia que nos deu tantas possibilidades, restou-nos transformar a nossa casa num espaço tecnológico que nos permitisse estar em contacto com todos, sem ter de sair.

Com o meu marido a trabalhar enquanto enfermeiro e uma criança em casa sem companhia, não se pode dizer que tenha sido fácil, pois todos sabemos o quanto as crianças são enérgicas nestas idades e precisam de atenção. Foi complicado gerir a vontade dele de regressar à escola e de conversar e estar com os amigos ou família, e este sim, era motivo recorrente de birras lá em casa.

No entanto, explicando com calma a importância de ficar em casa, nesta fase, por causa do “jogo do vírus” foi essencial para uma maior compreensão desta situação pandémica nunca antes vivida.

De facto, houve uma necessidade muito grande de me (re)inventar, assim como milhares de professores e outros profissionais e de encontrar estratégias para conseguir trabalhar a partir de casa e com uma criança que teimava em espreitar pelo ecrã sempre que podia.

Foi o meu marido que passou a ir às compras, por exemplo, que era algo menos habitual. Foi também importante manter muitas rotinas, acordar igualmente cedo, vestir a roupa  e “fazer de conta” que seria um dia normal, para não esquecer do objetivo primordial que era conseguir ultrapassar tudo e nunca perder o foco, tentando sempre encontrar um equilíbrio entre o mundo virtual e o real.

A casa, que habitualmente representava o (tão desejado) descanso e lazer, passou a ser deixada para trás. Desarrumada, passou a ter equipamento informático espalhado não só no escritório mas por todo o lado, passou a representar o trabalho diurno e noturno, passou a estar sempre desorganizada e a ter montes de brinquedos que teimavam em multiplicar-se pelo chão, sendo que a tudo isso se juntava a pilha da roupa para lavar e a obrigatoriedade das refeições que implicavam tempo, que era algo que escasseava.

Quais os maiores constrangimentos?

Poderia falar da internet, poderia invocar a dificuldade de todos nós em nos ajustarmos às novas ferramentas do MEET, ou do ZOOM, entre outras. No entanto, parece-me que o maior constrangimento foi a falta de tempo. Efetivamente, fazer tudo em e a partir de casa  dá uma falsa sensação de descanso. O nosso dia a dia é sempre igual, não há pessoas diferentes, tudo está programado e, a não ser que a internet falhe, todo o processo se repetirá de manhã à noite e será igual ao do dia anterior, à exceção de alguns imprevistos que possam surgir.

Não se deve, contudo, esquecer,  que muitas formações foram canceladas, visto que as pessoas de idade mais avançada são aquelas que tiveram maiores dificuldades em conseguir acompanhar toda esta evolução informática e merecem o nosso respeito pois fizeram o possível para se reajustarem, também.  Para grupos de pessoas idosas nos quais, a título de exemplo, se trabalhava numa tentativa de combater a analfabetização, o trabalho manteve-se e manter-se-á parado, não se podendo continuar a fazer-se por teletrabalho, pois trata-se de chegar às pessoas com necessidades educativas especiais cujas aprendizagens e competências terão, obrigatoriamente, de ser abordadas em contexto presencial, impreterivelmente.

 

Consegue sinalizar algumas virtudes deste modelo?

Claro que sim! Aprender línguas é  muito (mais)  interessante quando se utilizam dispositivos digitais! Felizmente, na minha área, há uma panóplia de atividades e de ferramentas divertidas online que permitem a qualquer pessoa de qualquer idade trabalhar na aprendizagem da língua. A internet é um verdadeiro “poço sem fim” de informação online e há sites muito interessantes e didáticos que poderão permitir a aprendizagem das línguas à distância de um clique. Qualquer pessoa pode aproveitar o tempo online para fazer um curso, um workshop, para desenvolver e melhorar as suas aptidões pessoais e profissionais.

Há alguma dinâmica deste tempo que ponderem ‘aproveitar’ e manter no regresso à ‘normalidade’?

Sim, sem dúvida! Todos aprendemos um pouco mais, no que à aprendizagem online diz respeito.  Acredito que este processo de “teletrabalho” inicialmente se estranhou, mas agora já se entranhou e, nesse sentido, pessoalmente, ponderarei a possibilidade de trabalhar online mais vezes e sempre que me for possível.

No entanto, o meu caso é sempre diferente, pois se eu posso escolher, no caso do meu marido, por exemplo, que é enfermeiro, trabalhar de forma síncrona não é uma opção de escolha.

Optarei novamente, e sempre que eu achar necessário, pelo regime online, mas darei sempre especial ênfase ao regime presencial, pois é algo muito importante para muitos dos alunos e formandos. Nem todas as pessoas possuem equipamentos próprios ou as competências necessárias para acompanharem este regime e ainda não se consegue fazer tudo e chegar a todos, através dele.

No caso do pequenito, há muitas ferramentas digitais de complemento à aprendizagem eas crianças de hoje em dia beneficiarão imenso se poderem utilizá-las, quer no tablet quer no telemóvel.

A partir de agora, mais equipamento informático sim, mas sempre com (muita) moderação!

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