Hoje da Serra saem palavras de Inês Pedrosa. A voz e cara desta autora entram pelas nossas casas adentro com alguma regularidade dado o seu papel de comentadora da actualidade na RTP. Não sou consumidora de televisão e por isso não posso (mas também não quero…) tecer comentários sobre a Inês da TV. Já a escritora agrada-me bastante. O livro que hoje trago prende-nos pela sua humanidade e, tendo já passado uns anitos desde a sua 1ª edição, pertinência.

Sempre que os regulamentos o permitem, gosto de ir com os alunos da minha direcção de turma a eventos que a Escola ofereça. Foi num desses momentos que Inês Pedrosa me caiu no colo. Uma das minhas alunas vendo-me a folhear o livro que ora deixo disse-me: “Leve professora, leve, ela é minha prima, se quiser até os posso levar para autografar.” Confesso que fui-me esquecendo de levar os livros e por isso não estão autografados… mas ficarei sempre grata à Ana pela recomendação porque a prima escreve muito bem. Fiquemo-nos com “Fazes-me Falta” de Inês Pedrosa.

Inês Pedrosa

Foto de Nuno Ferreira Santos – Jornal Público

Fazes-me Falta

“Não basta morrer para se conhecer o riso de Deus – mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada Nele uma vida inteira.”

“O que é o respeito? A sala de visitas do medo. O quarto dos fundos do amor. O tecido que resta, depois do corpo- a morte, tão cosida ao pavor da vida. Não me respeites- não me esqueças. “Respeito a tua opção” – disseste-me um dia, numa mesa de restaurante, num daqueles restaurantes engravatados onde, desde que eu entrei na política, passamos a encontrar-nos, espaçadamente. Como se dissesses: “Já que substituis as nossas esplanadas adolescente por esta vida oficiosa, não me interessa o que fazes.“  Deixaste de me criticar, perdeste o prazer arrepiante de ser injusto que só se tem para com aqueles que se amam, o gozo da maldade sem culpa, gozo erótico absoluto de vencer sem vitória. “

Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual.”

Sinopse

“Fazes-me Falta” mostra-nos dois olhares diferentes sobre um mundo igual. As personagens são: – uma mulher bem sucedida, bem formada, boa companhia, justa, capaz de admirar a inteligência alheia. A política, para a qual entra enquanto personagem activa, transforma-a, altera o seu quadro de valores, o seu sentido de justiça e até a sua honestidade intelectual passando de admiradora da inteligência alheia a usurpadora sem escrúpulos, o seu “código moral burocratizou-se”.

– um homem muito inteligente, de meia idade, reformado, que carrega na alma tudo o que de mau uma guerra pode fazer. Na sua caminhada pela estrada da vida sabe que pode prescindir de quase tudo, mas nunca de um lenço de “pura seda”, afinal a estética, não sendo tudo, é muito.

A mulher acabou de morrer de gravidez ectópica, mas não aceita muito bem esse novo estado e por isso se deixa ficar num universo onde tudo vê, mas que em nada pode interferir. O homem não consegue aceitar a partida da mulher e por isso vai conversando com ela e procurando alcançá-la…

Ao longo da obra ficamos a conhecer, com duas versões distintas, o interior de personagens muito diferentes, com as quais cada um de nós se pode identificar. Toda a obra nos transporta pelos sentimentos que as atitudes de cada um despoletam no outro e permite-nos aprender a sentir a falta que nos faz aquilo que perdemos e a que, eventualmente, não demos o devido valor.

Pelos olhos das personagens o leitor conhece muitas das fraquezas humanas; a amizade é dissecada sendo-nos apresentada em toda a sua riqueza e altruísmo. Em toda a obra os sentimentos são escalpelizados por um bisturi inclemente que tudo expõe, com igual intensidade, desta forma torna-se difícil fazer a destrinça entre “bons” e “maus” sentimentos. Ficam apenas sentimentos…

“A rapariga deixou os livros cair na estrada e o autocarro não terá tempo de travar antes que ela a apanhe. Depressa – lança-te sobre ela. Desta vez vais poder salvar alguém. Não redimes a morte do teu companheiro de pelotão, porque a morte não pede redenção. A morte não pede nada, meu querido, não temas. Só a vida te acusa, a vida dos humanos tão imperfeitos como tu, heroicos e trapalhões, aldrabando a cegueira original com certezas de candonga. Vem, não tenhas medo, lança-te sobre essa menina que te sorri como eu e salva-a. Estou à tua espera num sítio onde as palavras já não magoam, não ferem, não sobram nem faltam. Esse sítio existe.”

Boa semana com livros!!!

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1 COMENTÁRIO

  1. Tb li ….e confronta-nos com aquilo que é importante na Vida e por vezes quando damos por tal ,é irremediavelmente tarde ……por tal .é preciso Viver-la para Contar(la),senão fica ou vai ficar uma mágoa e dor irreparáveis…..

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