Foto gentilmente cedida por Mauro Carpinteiro

Encontrei-o em Folques. Tinha ido visitar o P. Virgílio, na Teixeira. Eram vizinhos. Em serranias, não muito fáceis de servir devido a distâncias e más estradas, rivalizavam nas motos: o P. Jorge, com uma BSA de 650 cc. Uma bomba! O P. Virgílio, com uma BMW 500, com veio de transmissão. Outra bomba! Mas rivalizavam também na presença em todos os lugares das freguesias, para prestar assistência religiosa e não só, a toda aquela gente. Foi em Tentúgal, passados poucos anos, que o P. Jorge começou a mostrar toda a sua dedicação e espírito apostólico, deixando marcas de vida cristã que ainda perduram. Passou depois a Lorvão. Bonito o depoimento, nas redes sociais, de um enfermeiro do Hospital de Lorvão, a dar conta do cuidado e carinho do P. Jorge para com aqueles doentes. Mas também sinal do muito apreço que lhe dedicavam os habitantes de Lorvão e Figueira a presença de um grupo em sua casa no dia dos seus 90 anos. E hoje mesmo, novo grupo no seu funeral. Recordo o cuidado dele em não deixar Igrejas nem Capelas sem Missa ao Domingo. Não se limitava à regra de três missas. Eram aquelas que as pessoas tinham necessidade e que cabiam dentro de horários compatíveis. Não por qualquer interesse monetário, mas para servir.

Conheci-o melhor em Coimbra, depois de deixar as paróquias por motivos de saúde. Veio habitar em casa sua, no Alto de S. João, paróquia de S. José. E logo se apresentou ao Pároco, disponível para servir. Capelão do Areeiro e Portela do Mondego, foi sua principal atuação a realizada na Igreja. Assumiu uma missa diária, finda a qual ia para o Confessionário, onde ficava uma, duas horas… sem medir tempo. Pedi-lhe para tomar conta do serviço dos doentes na Paróquia, o que exigia, não só atendimento na Igreja, mas visitas domiciliárias… As escadas, a dificuldade de movimentação, impediram a continuação de tão relevante serviço. Mas descobriu que podia ajudar os residentes no Lar do Centro Social. E ei-lo a preparar leituras, cânticos, poesias… para ler e partilhar. E como animava os idosos, fazendo-os participar com cometários às leituras, podo-os a cantar cantos tradicionais, ensaiando-os para cantar nas missas festivas…  Que alegria, que ânimo conseguia transmitir!

Outra paixão da sua vida, foi a amizade e colaboração com os Missionários Combonianos. Não havia festa em sua casa sem os amigos Combonianos. E não havia festa no Seminário, ali bem pertinho da sua casa, sem a presença do P. Jorge. Esta amizade levou-o concretizar um sonho: ser missionário. Como já não podia partir para terras de missão, resolveu proporcionar aos Missionários Combonianos possibilidade de alargar a sua ação de animação missionária, a partir de Calvão. Adaptou a sua casa, de construção recente, com a construção de um primeiro andar e salas de reunião e doou-a aos Missionários. Que alegria a sua no dia em que fez a escritura de doação da casa. Ali viveu, algum tempo, uma pequena comunidade de três padres combonianos, dali irradiando a sua ação por aquelas terras, outrora ricas de vocação sacerdotais, missionárias e religiosas.

As pernas não ajudaram e obrigaram-no a ficar retido em casa, mal dando uns passos, ou mesmo dependente da cadeira de rodas. Uma das primeiras preocupações foi pedir ao Sr. Bispo autorização para celebrar a santa Missa em casa. Ninguém o procurasse às 11h00, porque ele estava a celebrar, sintonizado com o Santuário de Fátima. Falava sempre em escrever mais um livro com recordações da sua vida de Padre! Ainda tinha tantas coisas para contar! Consciente do seu estado de saúde, falava frequentemente na morte próxima: Isto está para breve. Foi na sexta-feira, dia 11 de dezembro, a última ida para o Hospital. Fez questão de comunicar imediatamente ao Capelão. O P. Fernando disse-me que esteve com ele duas vezes, que lhe administrou a Santa Unção e o ajudou a partir em paz. E partiu, no domingo, 13 de dezembro. Segunda-feira, Missa de Corpo presente em S. José, como ele tantas vezes tinha pedido. E as pessoas corresponderam, enchendo a Igreja, em gesto de gratidão, de ação de graças pela vida dedicada ao serviço de Deus nos irmãos. Onze padres concelebraram, em missa presidida pelo Vigário Geral, P. Manuel Ferrão, na impossibilidade do Bispo, D. Virgílio. Seguiu para Calvão, sua terra natal. De novo Missa de Corpo presente, desta vez presidida pelo D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro e concelebrada por 15 sacerdotes, a maior parte Combonianos, que assim quiseram mostrar a sua gratidão a quem tanto os estimara.

Guardamos o testemunho da sua fé, o seu exemplo de serviço, a sua amizade. Que o Senhor o guarde na bem-aventurança eterna.

P. João Castelhano

 

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