
O esplendor de Portugal, como canta o hino nacional, reside nos descobrimentos e no colonialismo subsequente, considerado o período glorioso da nossa história. Na narrativa colorida contada nas escolas, o país surge como o “bom colonizador”, que nunca exerceu sobre os povos escravizados e colonizados a violência que outros povos exerceram. Raramente visto como um sistema racista, o colonialismo português não era questionado como tal.
“Deitámo‑nos ao mar por não saber o que fazer em terra”, diz-nos o grande português, pensador e ensaísta, Eduardo Lourenço, recentemente falecido. Questionando a narrativa oficial, os descobrimentos surgem como uma forma de compensar Portugal “pela sua pequeneza ou como um meio de a tornar invisível”. A consciência colonialista portuguesa continua por resolver, num percurso iniciado há mais de 500 anos, alertando para a necessidade de acabar com o “psicodrama de raiz africanista em que todos participámos ou participamos para exorcizar os demónios de uma aventura histórica mal terminada com aparência de bem terminada ou vice‑versa”. O processo de descolonização foi acompanhado “dos mesmos fantasmas que durante séculos estruturaram a existência sonâmbula do nosso colonialismo inocente” (Eduardo Lourenço, 2014, Do colonialismo como nosso impensado).
Até hoje, nunca existiu um museu dos descobrimentos e da escravatura em Portugal, não nos é ensinado na escola que existiu um apartheid em Angola e em Moçambique, criado pelos portugueses. Insistimos num olhar benevolente sobre um Portugal que não hesitou em promover o trabalho escravo até 1974 e acarinhamos a narrativa do “bom colonizador”, que não discriminava porque se integrou com as populações locais, quando, na verdade, subjugava, violentava e obrigava essas pessoas a despirem-se da sua identidade africana. A história colonial portuguesa é um dos fenómenos mais violentos da nossa história pelo seu lastro de racismo, saque, genocídio, exploração e transculturação.
Quer a escravatura, quer o subsequente tráfico, já eram práticas desde a Antiguidade Clássica em várias latitudes e advindo, principalmente, da conquista de novos territórios e da subjugação dos povos que lá viviam. Portugal inaugurou o transatlântico tráfico de escravos que se iniciou no século XVI, de que foi pioneiro e beneficiário principal por cerca de dois séculos. E não foi apenas pioneiro no tráfico de um continente para outro, desenvolveu a atividade levada a uma grande escala. Em poucos anos, uma insípida atividade ligada ao tráfico floresceu, em que rapidamente entraram outros povos europeus com mais capital e engenho do que nós e que nos superaram nesse negócio infame. Caçavam os negros como animais em África, em seguida carregavam-nos em barcos para atravessar o Atlântico.
Com a estimativa situada nos cerca de 15 milhões de seres desumanizados e objectificados, em cerca de quatro séculos e até à proibição desse desprezível comércio em meados do século XIX, provocou o arrasamento de aldeias, etnias e civilizações. Sem esquecer o genocídio das populações nativas no continente americano. Portugal, enquanto colectivo, tem, ainda, a fazer um longo caminho de mea-culpa. Após a abolição da escravatura, gerações de filhos de escravos, escravos continuaram, deixaram de ter o estatuto jurídico, para ter estatuto material de escravos, por gerações e na prática. Até meados do século XX, tinham cartões de identidade que os identificava como indígenas. Na colónia de Angola, no Censo de 1950, existia a “ficha de recenseamento de população não civilizada”.
Na verdade, a realidade é dura e vai beber a fontes inquinadas da história. A história enquanto área do saber serve igualmente à edificação de uma imagem, de uma narrativa que se poderá encontrar mais ou menos ao serviço dos interesses de terceiros, confundindo-se, assim, com propaganda. E propaganda será enquanto a versão dada de uns acontecimentos se sobrepor à de outros, quando, à custa dos benefícios obtidos, se alia a omissão do que poderá ser considerado menos abonatório da narrativa oficial.
O racismo em Portugal não é discutido, porque como cultura acreditamos que não necessita de discussão. Mas negar o racismo, já é uma confirmação da sua existência. Reconhecer que somos uma sociedade racista é o primeiro passo para modificar pensamentos e atitudes arbitrárias. Quando nos dizem “agora tudo é racismo”, é preciso ter consciência que sempre foi, só que antes era silenciado. E seguramente o resto do mundo não aceita a nossa narrativa. Eles sabem a verdade. Vivenciaram-na.
Todas as minorias vitimizadas – que só com o avançar dos tempos conseguem, gradualmente, ganhar alguma posição e visibilidade – merecem o nosso respeito e a nossa solidariedade. O facto de, ainda hoje, não existir correspondência entre o número de negros residentes e o número de negros em lugares de liderança na sociedade é, no mínimo, esclarecedor. A ausência de representatividade de uma fatia que podemos considerar expressiva na sociedade – quantas vezes usado como símbolo de cosmopolitismo pelas entidades oficiais – reflecte um sistema que discrimina pela cor da pele. Basta um movimento de afirmação, logo surge a ofensiva “volta para a tua terra.”
Diz-se : “foi um produto do seu tempo”. Hitler e o Holocausto também foram. Mussolini também. Franco, Salazar, o Salazarismo também foram. Isso não justifica coisa nenhuma. A questão é que o racismo e a nossa formação histórica, oriunda do colonialismo, deixaram marcas profundas que não devem ser consideradas como algo que não tem ingerência na nossa sociedade.
Como disse o filósofo camaronês Achille Mbembe as “sociedades coloniais eram entidades nas quais desaparecera o sentimento de piedade” (no livro Políticas da Inimizade). Essa herança não se perde pura e simplesmente. E em momentos de maior tensão social, ou de polarização nos posicionamentos da vida em comum, surge sempre da forma mais violenta possível. E temos acontecimentos bem próximos que o comprovam: o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos da América, e de Bruno Candé Marques, em Moscavide, Portugal. Por outro lado, a vandalização das estátuas e outros símbolos do colonialismo. E apenas a título ilustrativo, porque muitos outros existem.
O peso de uma história colonial negada desponta igualmente no racismo traduzido na atuação das polícias e de outras forças de segurança, nas políticas de habitação e segregação, nas leis de nacionalidade, no discurso de ódio de crescentes movimentos sociais e políticos, da representação do país e da sua história.
“Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser anti-racista” (Angela Davis, filósofa e defensora dos direitos da população negra nos EUA e no mundo).
Marília Alves




Excelente texto, na sequência dos artigos, também de nível superior, que têm vindo a ser publicados no Penacova Actual. Um tema que nos deve fazer pensar (e agir), porque o respeito pela dignidade de cada ser humano, de cada Pessoa, na sua individualidade única e irrepetível, deverá ser, em última análise, a primeira atitude de cada um de nós e de cada estrutura económica, social e política, seja local, nacional ou internacional.
Extraordinário! Bem documentado e estruturado. Um artigo que eclipsa grande parte dos cronistas de jornais de tiragem nacional.
O artigo está bem fundamentado e é profundo quanto às raízes históricas do histórico racismo Português, que macula o feito autêntico da organização e execução dos descobrimentos. Mas quando se lê a Peregrinação logo se começa a descontar no nosso esplendor colonial!
O meu racismo de branco no interior de Angola, onde cheguei com 5 anos em 1945, ficou profundamente maculado quando vi dar 25 palma- toadas puxadas a cada mão a um africano, pior ainda porque dadas por outro africano, o que ainda oprimia mais a “raça”!
Com a família isolada no mato, meu pai, médico, arranjou um menino com mais 3 a 4 anos para brincar comigo. O menino fez-me uma linda camioneta com bambu, o miolo para as tabuinhas, a casca para pregos. Tinha rodas, andava puxada e fazia o ruido do motor de forma engenhosa: cilindro com a parede lateral feita com os tais preguinhos, onde deslizava o topo de outro prego mais forte que com o movimento fazia o tal ruído. Eu considerei o menino Africano superior, um engenheiro inteligente e com um jeito que eu não tinha. Hoje sei que Picasso admirou tanto a arte Africana como a das cavernas do paleolítico! Quando raramente oiço qualquer música parecida com batuque, vem-me a saudade da vida mais animada a que eu já assisti, a das sanzalas, bem como da maior arte que eu já vi de dança com música, expressando alegria, paixão, ternura, sofrimento, luto e rebeldia, num só espetáculo, noite adiante, que ouvia ao longe da minha cama de menino do Quitexe, quando tinha apenas duas casas de alvenaria e telhado!…